LEITURAS DA SEMANA À VOLTA DO MUNDO
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
O DANIEL
O DANIEL
“Eu antes quero ser como sou e ter a cabeça que tenho, do que ter
pernas e braços e ser como alguns!?...”
Era a sua máxima, desinibida e sem
preconceitos pela sua extrema deficiência.
A quadra que
abaixo se segue, foi criação de um natural de Vila Verde, Vidago. Era
deficiente motor de nascença; as suas pernas eram uma amostra enrodilhada de
membros; das suas mãos apenas funcionava perfeitamente a mão esquerda. Era um
exímio artista em esculpir altos-relevos em madeira; encostando ao peito o naco
a esculpir, entalava-o contra uma parede e servindo-se da mão esquerda e um
fraco canivete, fazia maravilhas. Uma delas, foi a escultura de António de
Oliveira Salazar, nessa altura Primeiro-Ministro do Governo português, que lhe
valeu oferta de uma cadeira de rodas, que se ajustava à sua deficiência -para a
época já era um grande bem.
Com um só braço,
ele subia os degraus da escada da minha falecida sogra, a D. Áurea, com tanta
velocidade como uma pessoa normal.
Na altura, que
também havia coisas más, talvez em menor quantidade das que agora existem,
oficialmente ele não podia frequentar a Escola Primária; porém, impelido pela
sua tenacidade aliada à boa vontade e à condescendência da Professora, por lá
andou e sem perder ano fez a 4ª classe.
A sua força
interior era tanta, que continuou a estudar em casa, e, com a ajuda de um rapaz
seu amigo, na altura seminarista, conseguiu fazer o 2º ano, que era o mínimo
necessário para entrar para a Escola de Belas Artes onde realmente concluiu o
curso que desejava.
Chegou mesmo a
representar Portugal no estrangeiro e uma das exposições que fez foi no Japão, da
qual a RTP captou imagens que com certeza devem fazer parte das fitas ou da
videoteca daquela estação televisiva.
Mais tarde
arranjou trabalho numa tipografia em Lisboa, como tipógrafo, casou, e mandou
construir uma vivenda em Cascais, -Vivenda Danisa- adaptada às suas
deficiências motoras. Talvez por ironia do destino ou por vontade própria, não
deixou descendentes directos.
Nunca notei
quaisquer complexos de inferioridade pelo estado do seu físico. Era bastante
alegre e conversador, sabia muito bem o que dizia e tinha muito boa oratória.
Vi-o conduzir
o seu carro com uma perícia que causava admiração aos melhores condutores e
inveja a muitos nabos, que ainda hoje florescem e enfeitam com a sua rama as
estradas nacionais
De seu nome,
Daniel da Rocha Gomes.
Já faleceu.
Esta sua
quadra é dedicada a um chafariz que foi alimentado por uma mina, actualmente de
úbere seco, que abasteceu de água durante muitos anos toda a aldeia de Vila
Verde. O fontanário que ainda hoje existe, a aridez tomou conta dele e deixou
de gemer quando em fantasiosa recordação se carrega na sua virtual torneira.
Porque da real apenas existe um “arqueológico” coto de velho latão. Está
situado num largo do qual foi padrinho: O Largo do Chafariz.
Até mesmo no Inverno
Este velho chafariz
Parece um velho enrugado
Com o pingo no nariz.
(Daniel da Rocha Gomes)
Nota: Um artista que a comunicação
social deixou cair na penumbra do esquecimento.
António
Figueiredo e Silva
Vila
Verde/2003
www.antoniofsilva.blogspot.co.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
SÓ ME FALTAVA MAIS ESTA!? (Desaforos de um "Peste Grisalha")
SÓ
ME FALTAVA MAIS ESTA!?
(Desaforos
de um “Peste Grisalha”)
Era
época de Natal e fazia um frio de rachar, porque na noite anterior a serra
havia sido coberta por um alvo manto de neve fofa como algodão. Um vento
furioso e cortante como lâminas, zunia com grande bolina a demarcar a sua
posição hibernal, obrigando-nos ao aconchego da lareira onde meia dúzia de
achas atiçadas pelo fogo, zangadas crepitavam como que a refilar pela sua sorte,
deixando porém, que a sua alma fumarenta galgasse pela velha chaminé, defumando
os enchidos suspensos por um fio no pau de carvalho que a atravessava e subindo
de seguida em direcção ao céu, em frenéticos e desajeitados corrupios que a
ventania com retesado controlo comandava.
A mastigar umas castanhas assadas e a
saborear um bom vinho amornado na pichorra, o serão prolongou-se; entre o
bebericar e a tecelagem de dois dedos de conversa, o meu velho amigo, de cabeça
branca como a neve, maleitosa de grisalhice, pousou o cotovelo sobre a mesa e,
com sublime calma, assentou o seu queixo entre o polegar e o indicador; às
vezes olhar a fogueira, outras a observar-me com um ar de concentrada
tolerância e ao mesmo tempo de satisfação estampados na sua face enrugada, apossado
de uma lentidão divina, cavaqueou assim:
Muito
antes da minha nascença, naturalmente que já por cá zarandeava alguma escória a
infernizar a comunidade mais pacata deste país. Mas esta casta de “gente” não
tem quedado a sua proliferação que actualmente se encontra num estado
endemicamente avançado, ao ponto de, com extrema facilidade, se fisgar ao pau
previamente ensebado, da coercividade da lei.
Quando germinei, medrei e já comia
côdeas, ainda muitos desta ascendência andavam a andarilhar no cosmos genético
testicular à espera que lhes fosse concedida uma oportunidade de avançarem para
o engrossamento do monturo já existente, cujo direccionamento era criar dificuldades
e desestabilizar a harmonia da sociedade já em si parcamente estabilizada. Muitos
conseguiram-no. Melhor fora que, embrulhados num bocado de papel pardo de reles
qualidade, houvessem tido o seu destino confinado ao fundo uma latrina, ou que
tivessem tido o azar – sorte nossa – de terem sido desdenhosamente catapultados
pelas pontas dos dedos de uma mão macia ou calejada, numa extasiada selagem da derradeira
satisfação de uma lascívia que foi rapidamente saciada.
É precisamente dessa gentalha, que
germinou desses andarilheiros testiculares que a nossa Pátria está contaminada;
gente sem vergonha onde a capacidade de liderança é um fiasco mas que se
alcandoram muito acima do que a sua parca inteligência permite; foi uma questão
de sorte para eles e de infortúnio para nós.
Sim, vim a este mundo numa época
inquietada pelas mais diversas razões como: o fim da segunda guerra mundial,
que afectou Portugal – e o Mundo - com a escassez de produtos alimentares, a
falta de assistência à sociedade no que se refere a cuidados de saúde e
reformas, além de outra realidade que actualmente volta a fazer o seu ataque,
porém com uma magnitude desenfreada, que é a exploração do homem pelo homem;
apesar de toda a força - fraca – regulamentar instituída, o esclavagismo
vergonhoso continua, porém com maior intensidade; os senhores do capital e da
gerência incompetente deste bocado de terra continuam incólumes na sua marcha
abrasiva para a destruição de todos os valores de bem que uma comunidade possa
conter; impávidos e serenos, prosseguem a sua marcha como se estejam relaxadamente
a fazer uma “caçada no pinhal do rei”, sem serem objectivamente beliscados.
Estatuem em seu proveito e tutelam-se
entre si para a decomposição dos disparates que cometem sobre a capa pouco
transparente da invulnerabilidade, mantida como um privilégio somente seu. Uma
vergonha! Se sentem que não gostam das verdades que lhes são postas na mesa, não
se limitam apenas em não comer, mas optam por todos os meios menos dignos, fazer
desaparecer o cozinheiro. Gente onde o pudor se esvaiu no princípio da sua
existência. Canalhas!
O que tem orientado esta gentalha não
tem sido por certo a capacidade de raciocínio porque esta tem os seus limites,
contudo a sua estupidez. Esta é frisada geneticamente e infinita na sua acção.
Quer isto dizer que esta maltosa pertence sim a uma elite; uma elite
depauperada de princípios.
E foi devido a estes princípios
empobrecidos que eu, depois de ter atingido a grisalhice, me vi compulsivamente
sujeito às regras de um Sinédrio a enfrentar as indagações dos drs. da lei,
enquanto reflectia em mudo solilóquio: depois de tudo o que dei de mim pela
minha Pátria e consequentemente pelo meu povo e depois de todos os revezes por que
passei, SÓ ME FALTAVA MAIS ESTA!?
Sabes, tenho altivez e carácter
suficientes para lhes perdoar, mas nunca esquecerei.
Eu, sou daqueles que… não se deixou ficar,
para ser “atirado aos tubarões”.
António Figueiredo e Silva
Coimbra, 16/12/2016
www.antoniofsilva.blogspot.com
segunda-feira, 12 de dezembro de 2016
O "MANEL BAREIRO"
O
“MANEL BAREIRO”
Ou
“MANEL
D’OBAR”
(Coisas
da minha terra)
![]() |
| Vendedor de peixe |
Alto,
dono de uma altura bastante abonada, de boina posta de lado sobre a cabeça para
lhe proteger a vista dos raios do sol, o nariz meio afiado, tez salitrada e
algo escamada pela aragem do mar; todas as semanas esta figura vinha desde a
praia do Furadouro, localizada em Ovar, até Loureiro,
a
apregoar o seu “quem queeer, peixe freeesco!”, pescado no mesmo dia - pelo menos,
com solene convicção amparada por um modesto sorriso na face, assim o garantia.
Calcorreando a pé e descalço, a massacrar as plantas dos seus grandes pés, transportando
um pau sobre o ombro com duas canastras, uma em cada ponta, toscamente
amarradas por um bocado de corda de sisal, lá vinha aquele desventurado a quem
a sorte não protegeu, à torra do sol quando a canícula do estio apertava, fazer
sua “venda”, que era mais esmolar do que a vender - por vezes tinha a sorte de
acontecer as duas coisas.
Naquele tempo a vida era muito dura! E,
para aqueles que nasceram em determinadas regiões riscadas de bons acessos,
andavam sempre a sobrevoar as faixas aflitivas da pobreza, mantendo no entanto
uma seriedade e uma humildade, hoje custosas de achar.
Há muitos anos, o Furadouro e a
Torreira, eram regiões piscatórias de acessos agrestes, que as colocavam
distantes dos centros mais povoados; pertenciam por isso, a um grupo onde
muitas de outras áreas marinhas tinham os mesmos problemas, e que também não
lhes ficavam atrás na escassez de quase tudo, porque nem só de peixe vivia o
homem.
Pois este, o Manel Bareiro, como era
conhecido em Loureiro, andava uma distância que rondava dezoito, vinte
quilómetros, para cada lado – era um bocado! – para cumprir a penosa missão de
assegurar pelo menos, que a broa não faltasse em sua casa, porque peixe havia
com abundância; de tal maneira que muito dele apodrecia e era vendido ao preço
da uva mijona para adubar os campos na minha terra. Chamavam àquele
fertilizante, que fedia a ranço p’ra burro, escasso – desconheço a etimologia
da palavra.
Chegava aqui, as pessoas já o conheciam
bem, e então levantava o *oleado que era o impermeável da época, com o qual
forrava as canastras e protegia o peixe da quentura do sol, exibia a sua
mercadoria que era bem regateada antes de passar as mãos do cliente e depois…
“por acaso bocê num tem p’raí um bocadinho de brôa que me possa dar? A bida
s’tá má, o pêxe num dá case nada porque as pessoas num tem dinheiro; e atão no
Inberno é que passêmos munta fôme, porque a companha num bai ò mari, sabe? É
uma bida, que só Deus sabe!? – Dizia aquelas palavras com alguma tristeza envolvidas
numa expressão de resignação imposta pela madrasta da vida e docilmente
suportada pela sua maneira de ser.
Se lhe davam a “côdea”, levantava o
encerado o colocava o pão entre este e acanastra, onda já jaziam alguns nacos
por outras pessoas ofertados.
Lembro-me muito bem dele; era muito boa
pessoa e muito bem educado, e, acima de tudo, dotado de uma mansidão do tamanho
da sua estrutura física; grande!
Um dia até me ofereceu um galricho, que é
uma artimanha artesanal feita com aros de vime e rede, para colocar nos canais
ou nos rios onde havia peixes; quando eles entravam já não conseguiam sair.
Eu era muito miúdo quando o conheci e
provavelmente ele já não se encontra entre nós, mas eu nunca o esqueci; chegou
pois a hora de, com muita saudade, relembrar o seu nome, uma pessoa a quem a vida
bastante causticou.
O “MANEL BAREIRO” ou “MANEL d’OBAR”.
António Figueiredo e Silva
Loureiro 12/12/2016
*Oleado; era um pedaço de lona besuntado
com óleo de linhaça, depois posto a secar,
cheirava
mal p’ra caraças, e servia de impermeável
para
águas da chuva e outros líquidos; ainda não
havia
sido descoberto o plástico.
sábado, 10 de dezembro de 2016
PARA TODO O MUNDO, FELIZ NATAL
PARA TODO O MUNDO,
FELIZ NATAL!
![]() |
| EU, na minha melhor forma! |
Em
especial, para todos os meus amigos e para aqueles que lêem os meus escritos
disseminados por todo o Planêta Azul.
Não
quero deixar passar mais esta época natalícia, sem vos deixar os meus
agradecimentos pela paciência que tivestes em me terdes “aturado” ao longo de
anos; ao mesmo tempo, pretendo também desejar-vos um Natal cheio de alegria junto
das vossas famílias e daqueles que mais próximos estarão do vosso círculo
afectivo; é minha vontade também, manifestar-vos um desejo que habita no mais
profundo do meu ser: que o Novo Ano, 2017, traga no seu odre para vos ofertar,
tudo que de melhor desejais.
Espero
que a boa vontade supere a má, para que possa haver… “PAZ NA TERRA AOS HOMENS
DE BOA VONTADE”!
Feliz
Natal e um Ano Novo carregado de prosperidade!
A Todos, o Meu
Fraternal Abraço.
António
Figueiredo e Silva
Coimbra/Portugal,
10/12/2016
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domingo, 4 de dezembro de 2016
A AMIZADE
Não são as coisas bonitas que marcam as
nossas vidas, mas sim, as pessoas que
têm o dom de não serem esquecidas.
(?)
A AMIZADE
(Reflexão)
Quando
me afasto de tudo o que me rodeia e começo a confrontar e a escabulhar entendimentos
que há muito tempo se hospedam na minha venêta,
inúmeras vezes arribo a conclusões que
vale a pena transpor para palavras, por fazerem parte da realidade dos
nossos dias, onde os interesses por vezes conseguem escamotear amizades
incertas, substituindo-as por um manto de falsidade bem disfarçada, que aspira,
com muito requinte, mostrar uma realidade ainda que aparente, de uma realidade
latente, bem dissemelhante da primeira.
A amizade não é mais do que a
identificação de sensibilidade em relação aos infortúnios dos nossos
semelhantes. Como verdadeira virtude, não é fácil de encontrar, porém não é de
todo impossível.
Reconhecer estas pedras no plaino
caminho do nosso convívio quotidiano não é por certo tarefa simples, mas se
tivermos nascido com agudeza no entendimento de observação entalhado no nosso
ser, e durante a “curta” estadia por cá o tivermos aprimorado, conseguiremos
abrir a Caixa de Pandora profundamente escondida no fundo reservado dos nossos
amigos, ou supostos como isso.
O obstáculo principal que se opõe à sua
descoberta (a benquerença) é sua a raridade; podemos compará-la a uma agulha
perdida nos fardos de palha da hipocrisia constante que a envolve. É
precisamente essa falsidade, adornada com um já muito usado, porém robusto capote,
concedido pela manha, que na maioria das ocasiões por muito prudentes que
tenhamos sido, embarcamos no lodo do erro e ficamos desiludidos porque as
nossas supostas certezas se volatilizaram. Eram apenas aparentes! É bem verdade
que as aparências iludem por muito que tenhamos a mente aberta, mas… existe
sempre um mas… com uma análise cuidada, conseguimos distinguir a toca do “lobo
mau”, da do "lobo bom".
Muitos imaginam, erradamente, que essa
virtude se encontra no burburinho das festas onde a alegria extravasa – às
vezes até em excesso; nas tascas onde os vapores etílicos fazem arreganhar os
dentes; nas ocasiões de mais pesar onde guião deve ser carpimento e angústia; em
aparvalhadas excursões (algumas) de romagem às amendoeiras em flor ou para
fazer um apalpanço à cortiça dos
sobreiros alentejanos e olhar com ar de palonço, as varas dos pata-negra
freneticamente a tricar bolotas.
Traduzindo por miúdos: não, ela não se
encontra a pontapés, nos casamentos, nos baptizados, nos mortórios, nos
aniversários, nas tavernas, nas discotecas, etc. Estes são precisamente os
eventos onde o fingimento atinge a sua mais alta magnitude, mas todos ficam
aparentemente felizes, porque reuniram muitos “amigos”! Outros porque se
encontraram com os palitadores de
jaquinzinhos fritos afogados com uns copázios
de tintol – a mais sincera companhia – entremeando nos intervalos de mastigação,
algumas baboseiras manchadas de um picante tosco e por vezes abrutalhado, das
quais não se tira qualquer pitada de aprendizagem; para não falar dos que
se alardeiam, “tive muitos amigos convidados”, no funeral do Ti Manel havia
muita gente e eu também estava lá! Tinha muitos amigos, caramba! Tinha, tinha!?-Digo eu.
Isto são maneiras imprudentes de
contabilizar a amizade que no fundo nunca existiu. Permanece sim, é o medo de
que o parceiro se ponha a cuspir palavras pouco abonatórias sobre quem não
colabora com a falsidade social estilizada no espaço incorpora. Isto é verdade;
todo o resto são cantigas.
A amizade, podemos encontrá-la sim,
nos momentos mais desafortunados da nossa vida. É nessas alturas que temos
necessidade de ter alguém por perto “que nos dê a sua mão”, que nos escute, que
nos aconselhe, que nos apoie. É nessas “tenebrosas” ocasiões que nós ficamos
realmente a saber onde está a verdadeira amizade, que muitas vezes brota
espontaneamente de onde menos esperávamos, enquanto as ditas falsas amizades
se acocoram encasuladas no aconchego sua cobardia e mostram-nos desse modo quão
falsa era a sua afeição.
Apesar de tudo, tenho uma coisa para
dizer, que, pela verdade que confina vale a pena verbalizá-la: quando um
invulgar gesto de amizade com toda simplicidade nos faz um “ataque” de
surpresa, invariavelmente apossa-se de nós a vontade bravia de teimar e tentar
vencer ou ultrapassar os objectivos a que nos tenhamos proposto, porque
sabemos que não estamos sozinhos.
Uma virtude a conservar em molho de
gratidão:
A AMIZADE.
António Figueiredo e Silva
Coimbra/04/12/2016
www.antoniofsilva.blogspot.com
.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
A REVOLTA DA "PESTE GRISALHA"
O conhecimento torna a alma jovem
e diminui a amargura da velhice.
Colhe, pois, a sabedoria. Armazena
suavidade para o amanhã.
(Leonardo da Vinci)
A
REVOLTA DA “PESTE GRISALHA”
É
mesmo uma sublevação a sério! Nunca esperei que a ferocidade do meu ataque, a
imprudência de um deputado e as decisões dissemelhantes entre juízes, viessem a
resultar no ciclone de indignação que ultimamente têm bulido com a percepção de
uma tão grande fatia de portugueses. Esta reacção de cariz condenatório, já se
arrasta um mês e ao que se me quer afigurar, ainda está para durar.
Perante tão catastrófica revolta, onde
as hostes grisalhas, e não só, constroem paliçadas à minha volta numa cerrada
defesa e erguem as espadas dos seus argumentos os contra o que dizem ter sido uma
injustiça, a minha condenação. Que poderei eu depreender, desta lição de solidariedade
e indignação? Nada mais, nada menos, do que, nos trilhos cobreantes da lei,
algo devia ter sido mal conduzido ou mal interpretado.
Agora apraz-me questionar:
Como
é que o mesmo Tribunal (Tribunal da Comarca de Gouveia) que me absolveu na
instrução do processo, mais tarde me veio a condenar, cuja
condenação foi confirmada pelo Tribunal da Relação de Coimbra?
Só mais uma questãozinha, quiçá de mau
gosto, todavia não quero alimentar dúvidas dentro de mim, porque que funcionam
como uma camisa de forças para minha incomodativa maneira de ser:
Em face da minha resposta, não ao artigo
“Portugal de Cabelos Brancos” – veiculado pelo “Jornal I” em que o autor se
assinava por Carlos Peixoto, Advogado e
Deputado do PSD – contudo, unicamente à frase que deu origem à polémica
réplica, “A nossa Pátria está
contaminada pela já conhecida peste grisalha”, eu fui acusado de um Crime
de Difamação Agravada, pelo autor da frase constante no seu artigo de opinião.
Foi a “nobre” resposta que obtive, à carta aberta que lhe enderecei.
Nos seus argumentos processuais assumiu
com grande ênfase que era deputado; “choramingando” arguiu que foi muito mal
tratado, difamado, e outras interpretações nocivas que ele entendeu na sua trasladação
linguística. Até aqui, certo.
Como não ficou satisfeito com a minha
absolvição, encetou um recurso para o Tribunal
da Relação de Coimbra, pedindo “o meu pescoço à guilhotina”; com vista a
ser submetido a um julgamento no “Sinédrio” de Gouveia, o supracitado Tribunal retirou a Agravação, alicerçando a sua
tomada de posição, no argumento de que o queixoso não escreveu a sua crónica -
“Um Portugal de Cabelos Brancos”- como Deputado, mas sim, como simples cidadão,
transformando desta hábil forma, este crime, diga-se Publico-político, em um
crime particular, tendo como resultado o meu julgamento, donde culminou a minha
controversa condenação; justa ou injusta, não cabe a mim julgar.
A sociedade grisalha - e não só – com a
sua escamada revolta, está a encarregar-se-á dessa espinhosa missão, que
consiste no julgamento donde proveio a minha condenação em que os julgadores é
que são os condenados ao suplício do martelo da moral e do senso comum, onde me
parece abundar uma justificada razão para que tal aconteça.
Apesar da dureza e da conclusão e da refrega,
sinto-me bastante confortável, e, com os meus setenta e dois anos de idade, mas
com os miolos e o resto no devido lugar, ainda que contaminado pela grisalhice,
até agora não foi necessário recorrer ao xanax para ter sonos repousantes.
Jamais me arrependi e nunca me
arrependerei de defender, atacando raivosamente, quem eu entendo que despreza
os princípios da reciprocidade no respeito mútuo, catalisador de uma boa e
saudável vivência, e muito menos perdoo as ofensivas arremessadas àqueles que,
com mais ou menos saúde estão na rampa de lançamento para o além, mas que
deixam cá as suas lições de vida agrupadas em pequenas histórias de sangue,
suor e lágrimas, com parcas alegrias pelo meio, e que devem ser aproveitas
pelas mentes mais sensatas, para que no futuro possam contribuir para uma
estabilidade social mais condescendente e por isso, mas judiciosa.
E para finalizar, espero que esta
sublevação fique para a História, a fazer parte da tão badalada revolta social,
contra a minha condenação, em:
“O
CASO DA PESTE GRISALHA”.
António Figueiredo e Silva
(OCONDENADO)
Coimbra, 01/12/2016
www.antoniofsilva.blogspot.com
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