domingo, 10 de março de 2013

CORNO MANSO



Estou firmemente convencido de que só se
perde a liberdade por culpa da própria fraqueza.
(Mahatma Gandhi)
CORNO MANSO

O corneado é sempre o último a saber. Mas entendo que só o será de facto, se após ter conhecimento da “matéria”, aceita com complacência o capacete de protecção com que foi ilustremente coroado, sem esboçar qualquer reacção de repulsa ou agressividade, puxando a carroça da vida com extrema pacatez e resignação.
Logo pela manhã, depois de se levantar com alguma dificuldade devido ao aumento da queratina cabeçal, mira-se ao espelho e vê nele reflectida uma cara murcha com expressão condescendente, mas repleta de fingida felicidade. É este o verdadeiro corno. O corno-manso. O corno paciente e contente consigo próprio que aceita tudo o que lhe carregam e devora as sobras, se as houver.
Comparo o povo português ao o corno-manso. Depois de tantas vezes copulado, sodomizado, enganado e roubado, tem permitido que toda a espécie a sacanice continue, no o seu andamento uniforme, com total desprezo pelas massas. Não reage. Se reage, é com uma reacção de “cão que ladra não morde”. Aceita todas as agruras que lhe são impostas com uma passividade fora do normal. Ainda que sobrecarregado por sacrifícios que lhe tiram o sono, afectam a saúde, a vida familiar e lhe castram deste modo vivência, ainda arranja alento para mostrar alegria; um júbilo murcho, estúpido e descabido, que com toda a imponência de pobreza de espírito e néscio aparato, se resume ao som de cuicas e pandeiros. Saltam,  riem (ou fingem), mesmo debaixo do toldo negro da crise que ele sabe, o arrasta para o abismo. É esta a postura do verdadeiro corno. O corno-manso! O cornipelas.
Não penso que seja um problema de masoquismo; encaro antes, como um conflito sério no grémio da mentalidade que por razões desconhecidas nos faz conter a vontade de sublevação e amochar com incondicional submissão, colaborando na construção de uma maltrapilha alcatifa humana, por onde passam de peito inchado e com insolente desprezo, umas centenas de milhar de ladrões, aldrabões, corruptos, inábeis, trapaceiros e outras pestes semelhantes, que nós, vergando a coluna vertebral da vontade própria, docilmente permitimos… com esquálido sorriso e extrema resignação.
Somos ou não somos como o corno-manso?...


António Figueiredo e Silva
Coimbra, 09/03/2013
www.antoniofigueiredo.pt.vu 

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