domingo, 20 de janeiro de 2019

O SILÊNCIO МОЛЧАНИЕ THE SILENCE DIE STILLE சகிப்புத்தன்மை






 Ser inteligente, é usar o silêncio para não

 entrar em controvérsias desnecessárias.
 (Autor desconhecido)

Nem sempre; por vezes consiste num desabafo de
 palermice para arrolhar a cegueira intelectual
e a incompetência.
(Figueiredo)

O SILÊNCIO
МОЛЧАНИЕ
THE SILENCE
DIE STILLE
சகிப்புத்தன்மை

No mundo de hoje, as pessoas cruzam-se fria e silenciosamente com se não fizessem parte de uma comunidade onde a coexistência, por princípio, deveria ser valorizada em primeiro plano. Em silêncio sepulcral, com exacerbado masoquismo, optam por se amortalharem na manta de linho das suas emoções, simulando que nada sentem, enquanto os seus dilemas em frenético tumulto lhe encarquilham a meditação.
Actualmente, corolário de uma ambição anormal que impulsiona o indivíduo para a competitividade social, as criaturas tornaram-se extremamente frias e egoístas, espezinhando o seu semelhante com incidente ostracismo, como forma - enganadora, claro – de abicharem uma posição de relevo na comunidade onde estão inseridas, e acabam por irem desta para melhor (?), sem jamais terem existido.
Contudo, o silêncio e a frieza não constituem as formas mais inteligentes de dar a volta às questões problemáticas que lhes ciliciam a vida e lhes tolhem a razão. Quem for dotado de capacidade para ler o silêncio alheio, vai descobrir segredos que não lhe dizem respeito, é certo, mas descobre certamente as razões dessa indolência, dessa indiferença e dessa insensibilidade, que restringem as pessoas a uma angustiada introversão, a fonte principal de uma demência em curso, que muitas vezes acaba por se materializar no seu extremo.
Na maior parte das ocasiões, ao silêncio, à apatia e muitas vezes ao desapego – simulado – estão subjacentes configurações de sofrimento recalcadas de um passado turbulento, e a indiferença não é mais do que uma estratégia para a continuidade da vivência perante uma sociedade que é fria, crítica, tendenciosamente maléfica e invejosa.
No império do silêncio, não é verdade que ele exerça uma soberania absoluta; ele é povoado por perturbações diversas em persistente discórdia entre si, que transformam a existência de quem interioriza, numa contenda infernal, entre o ressentimento, a ambição, a fúria e a desconfiança, que combatem entre si como os Quatro Cavaleiros do Apocalipse, resultando normalmente desta batalha, a vingança retaliativa, sem peso nem medida, porque o intelecto ao rubro, perdeu parte ou todo seu poder psicanalítico e o critério se esvaiu.
Aquele que se submete ao silêncio, vive prisioneiro de uma existência que ele não deseja, mas que o medo do fracasso lhe impõe, como uma fuga à realidade, em que volume vai crescendo na razão directa dessa mesma indolência, cujo limite será uma depressão, ou até mesmo a demência em absoluto.
Não é tarefa fácil optar pela indolência, sendo por isso opção que deve ser bem “mastigada” antes de ingerida, na medida em que o seu desfecho pode ser antagónico e transportar no ventre resultados terríveis, se não mesmo, catastróficos.
Penso que devemos atirar para fora alguns dos sentimentos que mais nos flagelam, sem olharmos às censuras, todavia, se surgirem, encará-las com coragem e, manejando a espada da nossa frontalidade, submetê-las ao gume afiado da razão, rompendo deste modo o silêncio que nos atormenta.
Toda esta ladainha, para quê?
Só para dizer que, ser inteligente não é esconder-se por detrás do silêncio a fermentar uma apatia revoltada, mas enfrentar a realidade e todas as adversidades que dela possam resultar.
Como costuma dizer-se: atrás de um portão*, qualquer cão ladra.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 19/01/2019
www.antoniofsilva.blogspot.com

*Leia-se: silêncio.

Atenção: por ser “burro” e teimoso, não estou
a favor do novo Acordo Ortográfico.