sábado, 17 de fevereiro de 2018

SER FELIZ… NO FACEBOOK


Dá muito trabalho ser quem não sou.
(Wesley D’Amico)

SER FELIZ… NO FACEBOOK

Ser feliz é sermo-lo mesmo, e não fingi-lo perante os outros. Ora isto é uma faceta que raramente é demonstrada nas redes sociais, com grande frequência no facebook.
Se verificarmos os auto-comentários e os desabafos das pessoas, de uma maneira geral, andam a nadar num mar de felicidade e esquecem-se que a ilusão de iludir é mais enganosa do que a própria razão que lhes sustenta essa felicidade invertida.
As pessoas tendem a enganar os outros e apenas estão a enganar-se a si próprias; é mais ou menos como um teatro, o que está em cena não é como o que está por detrás do pano. O miserabilismo fica sempre escondido, porém, as mentes mais hábeis conseguem descortinar a parte negativa.
Mesmo com todo o fingimento, elas, sem querem, expõem “abertamente” a fragilidade que lhes vai na alma. Isto sucede com frequência porque as pessoas ao tentarem persuadir a comunidade da sua felicidade, estão a mentir a elas próprias. Por isso, muitas vezes as palavras são enganadoras e procuram ocultar o que de mais negativo lhes vai na alma – talvez seja uma forma de alívio.
O fingimento é como uma sombra que nos segue e só dura enquanto durar a poesia da ilusão.
Isto leva-me a um verso de Fernando Pessoa, que é a confirmação do que acabei de escrever:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente,
Que chega a fingir a dor;
A dor que deveras sente.

Quase sempre as ilusões são emoções hostis às verdades sentidas; estas estabelecem uma luta entre si, e em regra danificam seriamente a parte psicológica por, mais tarde ou mais cedo, conduzirem ao consciente a realidade existente; esta luta descamba sempre em desilusão e as decepções constantes fazem parte das causas de depressão, que se reveste de uma série de consequências de cariz desagradável, senão prejudicial – muitas vezes fatal.
Uma massiva maioria pensa – ou faz o mundo crer – que é feliz, inebriada só pela postagem de fotografias onde são notórios os sorrisos de orelha a orelha criados para efeito, acompanhados de um “V” feito com os dedos e “embelezados” também com risíveis biquinhos, não dispensando ridiculamente a colocação da língua de fora - se calhar cheia de aftas por dentro.
Quantas lágrimas sêcas de amargura não correrão por detrás daqueles sorrisos “abertos”, e quantas palavras sinceras ficaram por dizer, retidas no labirinto da resignação?
Erradamente cientes de que expõem uma face da moeda, esquecem-se de que, devido à transparência da mesma, acabam sempre por expor a outra face.
Mas o cardápio não acaba aqui; ainda subsiste quem complemente com umas frases sul-americanizadas, que por certo não saíram do seu cérebro, “quem é a mais bonita do mundo”? ou ainda aquela, “não sei que fazer hoje”, seguida de, “acordei com a pancada”, “toutaver”, ou a “Ambrosina está a sentir-se feliz” etc., acumuladas a muitas outras, das quais vou, só para terminar, vou usar esta: “A humanidade está perdendo os seus maiores gênios… Aristótoles faleceu, Newton bateu as botas, Einstein morreu, e eu não estou passando nada bem hoje”.
Façam o favor de ser felizes; pelo menos, no facebook.

António Figueiredo e Silva
Coimbra,18/02/2018