quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

CONVERSA AO OUVIDO DA JUSTIÇA


Se, por vezes, o juiz deixar vergar a vara da
 justiça, que não seja sob o peso das ofertas,
mas sob o da misericórdia.
 (Miguel Cervantes)

CONVERSA AO OUVIDO DA JUSTIÇA

Hoje, deu-me na moleirinha, despender uns minutos de conversa contigo, por isso, ouve, fica calada e não digas nada.
Embora não sinta qualquer animosidade contra ti, faço questão em alertar-te que tens andado a ser enganada, pela observação que tenho feito à solidez dos trilhos por onde tens caminhado. Sei que foste germinada para seres recta e imparcial nas tuas decisões, ligeira no teu andar, comedida na tua prodigalidade e cumpridora dos preceitos imanados pelo desejo colectivo de uma sociedade coerente.
Foste concebida com os olhos mundificados e bem abertos, livres estrabismo, ambliopia ou ramelas; outorgaram-te uma espada de dois gumes supostamente aguçados, para que que pudesses cortar a direito com qualquer dos lados; apetrecharam-te de uma balança para aferição da consciência decisória quando por força das circunstâncias é indispensável a sua acção interventiva.
 Contudo, apesar de tudo isso, tens andado a portar-te muito mal, porque das virtudes que há bocado tagarelei, não as tens cumprido cabalmente; tens fracassado e as tuas falhas têm desgraçado muitos elementos da comunidade que devias defender com paridade nos deveres e nos direitos; ora isso, perfeitamente, não tem acontecido.
Mas está descansada que não vou generalizar, porém, é inquestionável e tu sabes que andam muitos gatunos alforriados a passear-se de peito inchado, reclamando uma inocência impostora, enquanto miseráveis pilha-galinhas, por dois reis de mel coado, estão a ver o sol aos quadradinhos.
Agora vou dizer-te porque é que isso acontece, mas afina-me esses ouvidos.
Há muitos anos, aquando da tua concepção, sim, porque já és mais velha do que o cagar dos cães, propositadamente foste enganada por consciências insanas, vazias de carácter, de justeza e de moral, em que os interesses sempre se sobrepuseram ao civilidade, numa franca adopção filosófica do, “primeiro eu, segundo eu e depois tu, se ainda houver”, cuja doutrina se tem mantido até aos nossos dias, porém com acentuado e quase incontrolável crescimento. Para que este estado de coisas pudesse ter vingado e proliferar, enganaram-te; a espada com que te “premiaram”, tinha um dos seus lados rombo, e até hoje, penso que nunca roçou no esmeril da coragem; a balança que orgulhosamente seguras, muito embora os seus pratos gozem da mesma equivalência, os pesos que te dão para neles colocares, por vezes são falsificados, na sua massa específica; para mais agudizar a tua imponderabilidade, meteram-te uma venda nos olhos para cercear a tua orientação e não poderes guiar a ti própria, impondo-te a necessidade de seres orientada pelo olhar cínico da manhosice que em amistosa conivência com os interesses de quem te serve de guia, se propõem a falsear-te o carreiro que devia levar-te à verdade e à razão.
Se quem norteia o teu percurso é de moral duvidosa, discernimento flácido, permeável a quaisquer interesses políticos, ideológicos onde as amizades e as conveniências têm peso, tu nunca poderás dar bons resultados. É isso que tem vindo a suceder.
Existe uma intensificada barafunda entre a verdade a mentira e razão, de tal maneira desordenada, que para um idêntico procedimento submetido à tua doutrina e fundamentado com os mesmos argumentos, nunca se sabe qual delas vai subsistir.
Compreendo que a culpa não seja tua; por isso, espero que apareça alguém com coragem para te aguçar o gume rombo da espada, atestar o recheio dos pesos da razão e da dúvida e desviar-te a venda que te obstaculiza a visão; por último, queria sugerir-te que talvez seja salutar substituíres a espada por um bordão de marmeleiro e que sem “antolhos” te finjas de cega; é a única maneira que desfrutas para descobrir tramóias e poderes dar umas bordoadas naqueles que tentam levar-te por maliciosos ou polémicos caminhos.
Sabes, condicionados à tua letra, os defensores não fazem tudo e os decisores fazem muito - por vezes muito mal.
Por hoje, permanece no teu pedestal a matutar maduramente nas minhas palavras e verás que me vais dar razão.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 20/02/2019
www.antoniofsilva.blogspot.com