sábado, 28 de março de 2026

FORÇA AÉREA PORTUGUESA

 

Com quarenta horas de vôo, se faz um piloto;

porém, com quarenta anos de formação,

não se constrói um Técnico em Aviação.

(António Figueiredo e Silva)

 

FORÇA AÉREA PORTUGUESA

 

Eu no AB5 em Nampula Moçambuique
Ingressei naquela “Academia”, com dezassete anos de idade. Nunca lamentei o meu voluntariado, do qual, ainda hoje guardo no meu já carunchoso íntimo, aqueles velhos tempos, que muito me ensinaram a desenrascar, nos momentos de angústia ou alienação, próprias da idade! Agora, que a saudade não faz renascer uma réstia de esperança, pelo menos outorga ao meu pensamento, – por enquanto –, o prazer esvoaçar mais rápido do que a luz, e, com infinda satisfação, poder contemplar de cima das nuvens para baixo, e observar no horizonte longínquo retalhos de um mundo quimérico, cuja realidade, agora “ressuscitada”, tinha ficado arquivada na prateleira dos arquivos da minha memória.

Não duvido que, enquanto no meu cérebro esvoaça no sonho, a sensação de uma realidade que se encontrava em apática hibernação dentro de mim, fez exteriorizar a sua presença.

Quando me passou pela cabeça, ingressar na Força Aérea Portuguesa, a minha intenção era fugir aos estudos, uma vez que naquela altura, andava na Escola Industrial. A verdade seja dita; estava a dedicar-me um “bocado” mariolice e à diversão dos afamados matraquilhos; é o mesmo que dizer: estava a borrifar-me pró resto, pelo qual os meus pais tanto se sacrificavam.

Tolice da juventude.

Quando um dia olhei para um anúncio televisão, que versava sobre o alistamento para a Força Aérea Portuguesa, pensei para comigo: aproveita camêlo; safas-te dos estudos e tens o problema resolvido, (foi isto que eu, na minha jovem parvoíce cogitei), mas a realidade não foi bem assim!?

Primeiro a recruta. Comandada pelo Major Lélio de Almeida Ribeiro, - de quem ainda hoje alimento saudades. Uma figura, cujos discursos incutiam respeito e cumprimento do dever; contudo, não deixava de ser uma pessoa ponderada, compreensiva, e dotada de um fluente poder de dicção.

Hoje compreendo que não foi muito violenta, (como ainda hoje acontece nas fileiras do Exército), mas não deixou de não ser um bocado castigadora fisicamente; mas abria os miolos.  Havia, porém, certos predicados na BA2, que faço questão não deixar entrar em que da livre; as casernas, eram óptimos aposentos, - que tínhamos de manter sempre em ordem; banheiros higienizados, providos de água quente e fria a qualquer hora do dia ou da noite, que era jorrada sob furioso esguicho, através de cromados e asseados chuveiros, para nos despegar o unto do canastro; após a remoção do estrume sudoríparo, que, caldeado com pó, atulhava a porosidade do nosso courato, sobrevinha uma quietude, que domesticava nossa tensão nervosa, convidando-nos a um merecido refrigério.

A cozinha; naquela altura, era de requintado asseio; com grandes panelões de aço inox sempre a brilhar, como eu nunca havia visto; a alimentação que nos serviam, era um requinte; a messe onde eram nos servido o repasto, muito bem mobilada, com mesas redondas onde nos sentávamos em jovial conferência pantagruélica e circunstancial cavaqueira. As refeições principais, eram sempre acompanhadas por uma maravilhosa pinga de vinho, tinto ou branco, era à escolha, - naquela época ainda só havia vinho feito de uvas – e se fosse nosso desejo, era permitida a repetição de comida ou mais um bocadinho da pingolêta.

Já sabíamos que, em dias festivos, havia carne-de-porco-à-alentejana; uma delícia! Uma obra prima em gastronomia!

Bem, com a recruta praticamente consumada e finalizada, esta é concluída com uma marcha a Serra de Montejunto; já não me recordo da hora de saída, mas eram altas horas da madrugada, (duas ou três horas), sob uma temperatura invernal, em que o frio era danado, levando no bolso do capote, como inseparável companheira, uma minúscula garrafinha de bagaço de medronho, (que eu nem bebi), que a cada um de nós, havia sido distribuída – talvez por naquele tempo ainda não estar em voga a marijuana; assim, para lá fomos marchando em romaria militar, para procedermos ao desjejum matinal. O pequeno-almoço, que não tinha a ver com mesma refeição servida na BA2, aparentemente lá fez silenciar a nossa reclamação gástrica, até regressarmos ao nosso prezado aquartelamento, para saborear um lauto almoço. Assim, sim! – pensei eu.

Agora vinha o Tirocínio; era baseado no conjunto das especialidades por cada um de nós escolhidas; porém, concedidas segundo o critério, que, suponho, ser em face das necessidades técnicas, uma vez que, havia iniciado a Guerra no Ultramar. A mim foi atribuída a de MMA (Mecânico de Material Aéreo).

Eu tinha idealizado, (erradamente), que aquilo eram favas contadas, - como é habitual dizer-se. Afinal “saiu-me o tiro-pela-culatra”.

Ao ter conhecimento das disciplinas que o meu intelecto ia ter de debulhar, senti-me muito perplexo e inquieto; porque o Major Lélio A. Ribeiro, na sua última alocução, asseverou que era necessário estudar bastante, para poder vir a ser um Especialista da Força Aérea Portuguesa, - e acrescentou -, quem passar no Curso, será Especialista; quem “chumbar”, será enviado de regresso pelo caminho de onde veio, e nunca mais o será. E isto aconteceu a alguns, é verdade.

Então, o rol da matéria apresentada, constava de:

Aviões – teoria; Aviões – prática; Motores – teoria; Motores – prática; desde os motores de explosão, inflamação interna aos rectores, abrangendo os Ramject e Scrameject; Electricidade – teoria; Electricidade – prática; Tecnologia – teoria; Tecnologia – prática; Instrumentos – prática; Matemática; Física; Intrucção Militar – teórica.

Amedrontado e meditativo, passei as mãos pelo couro cabeludo, “arranhei” a minha consciência, e disse para comigo: “tem calma meu maluco, que vais vencer tudo isto.

Vezes sem conta, estudei até à 1:30 h da noite…, mas triunfei! Venci, com uma média que me permitiu ficar entre os doze primeiros classificados; o que me outorgou o poder seleccionar a Base Aérea em que pretendia ser colocado. Escolhi a BA6, situada no Montijo; onde permaneci algum tempo, até me ter voluntariado para Angola, - que não cheguei a ir; porém, fui enviado para Moçambique, com destino ao AB5 em Nampula, no distrito de Cabo Delgado. Não sem previamente haver passado pelas   Oficinas Gerais de Material Aeronáutico, em Alverca, para adquirir algum treino especialista no avião Dornier Do 27, - uma aeronave muito utilizada no conflito Ultramarino.

Ali chegado, fui ampliando os meus conhecimentos nos aviões Harvard T6 G; um avião que também foi fundamental para guerra Ultramarina. Apesar de “sucatas” barulhentas, (a ver pelas chapas do Overhaull, cravadas no seu interior, alguns deles já tinham voejado na guerra da Coreia), lá iam cumprindo a sua missão, como idosos “robustos” a tentar escalar o Monte Evereste.

Sobre Cabo Delgado, se não é da terra, é do ar, conheci todo o Distrito e a sua extravagante e “interminável” beleza. Hoje, ao que consta, é terra de ninguém, onde o Estado Islâmico, cavalga na crista das ondas do terrorismo, a cortar cabeças, decepar membros e a incendiar haveres daquele povo sereno, que tão bem conheci! Lamentável!

Voltando atrás. Foi graças aos ensinamentos adquiridos na Força Aérea Portuguesa onde muito aprendi e marquei para a minha rota na Técnica da Aeronáutica, que com imensa satisfação converti na profissão da minha vida, -mais tarde enganei-me.

Quando “levantei vôo” da aviação Portuguesa, foi com destino a Lourenço Marques; cidade que não conhecia. Na realidade era outro mundo!

 Depois de vários imprevistos, que não aqui divagar, ingressei nas Linhas Aéreas de Moçambique, (DETA), que já era uma companhia razoável para a altura, (hoje, não tem um avião), e fazia transportes com o avião Fokker f27 Friendship, do qual adquiri o Curso; um avião, já com avançada tecnologia para a altura.

Entretanto foram adquiridos Boeings 737, (três), dos quais, também obtive dois Cursos, sendo um deles nomeado Curso de Refrescamento.

Eram e ainda devem ser, aeronaves dotadas uma tecnologia que não lembra ao Diabo. É meu costume dizer, por chalaça (mas séria), que esse avião é o pai do Boeing 747 Jumbo. Essa máquina graúda e tecnicamente muito desenvolvida, da qual também tirei a especialização na TAP (Transportes Aéreos Portugueses). Antes da TAP haver adquirido estes, operava com os Boeing 707, cuja especialização, também tinha vindo adquirir, nessa fabulosa companhia – actualmente, em desenfreado declínio.

Ainda me desloquei Salisbury, para, na Air Rhodesia, obter prática no Boeing 720, na altura uma aeronave que já merecia estar na sucata, mas ainda ia aboando, e passava pelo Aeroporto Lourenço Marques, onde, como é regulado nas normas em aeronáuticas, se tornava necessária Assistência Técnica.

À parte de tudo isto, muito tempo dediquei ao estudo, para conseguir as minhas Licenças de Técnico de Manutenção Avões, nº 122, (licenciado em Fokker f27 Friendship, cujo exame, fui fazer no Aeroporto da Beira, (Moçambique), pelos examinadores, Eng.º Rebelo, da DETA, Verificador Sr. Mário Valadas, e da Aeronáutica Civil, (a entidade reguladora das normas da aeronáutica nas Províncias Ultramarinas), um Credenciado Técnico (que já não me lembro bem do nome), mas mesmo com a debilidade da minha memória, algo me ressalta como, qualquer coisa, … Salvani.

O exame para a adjunção do Boeing 737, já foi executado nos hangares da DETA em Lourenço Marques, também com a comparência “olhométrica” de um Inspector da Aeronáutica Civil. Não se brincava; os procedimentos inerentes à máxima segurança das aeronaves, tidos muito a sério tidos como um fanatismo nanométrico; a sua execução, revisão e verificação final; eram sempre certificados por três assinaturas.

Estava eu lindamente a progredir na carreira, e deflagrou o 25 de Abril em Portugal, seguindo-se o 7 de Setembro em Moçambique; eu, que nunca retraí as minhas emoções nem abdiquei das minhas convicções, meti-me naquela sarilhada (que, se tivesse vencido, aquele pobre povo e nós, hoje estriamos em melhor), e fui obrigado a dar-à-sola, voando o país vizinho, África do Sul.

Para me infernizar mais a vida, eu, que tinha passaporte oficial, este, havia de caducar uma ou duas semanas antes, do dia 7 de Setembro.

“Fugi” com um desprezível Salvo-conduto, que com mestria e astúcia consegui em três quartos de hora, para ir encontrar-me com a minha esposa e duas filhas que haviam estado num campo de refugiados em Nelspruit, na Africa do Sul.

Já naquele país, comecei a trabalhar ma Fields Aviation, - actualmente, Fields Airmotive -, em Germiston.

Lá, ao fim de um ano, fui o primeiro português a ser promovido a Assistente de Chefe de Equipa.

Grande parte do meu caminho, à Força Aérea Portuguesa eu o devo e ainda hoje ma sinto muito grato; não menosprezando, contudo, a minha natural resiliência.

Mas, não vou deixar passar em branco: o 25 de Abril, serviu para me derrubar, - e a muitos outros.

Se eu, à semelhança de uma aeronave, não houvesse tido resistência e tenacidade para levantar vôo contra o vento, hoje, estaria na mais abjecta e deprimente miséria.

Hoje, apesar da minha estrutura combalida pela oxidação da idade, (quase oitenta e dois anos), todavia, com a minha interação encefálica, ainda em razoável actividade, faço questão de, antes de encetar a descolagem para o meu derradeiro vôo com rumo ao éter, agradecer à Força Aérea Portuguesa e a todas as outras entidades ligadas à Aeronáutica por onde passei, pelas oportunidades que me concederam para a expansão do meu conhecimento na matéria, à qual, parte da minha existência com orgulho dediquei.

O MEU ETERNO OBRIGADO!   

 

António Figueiredo e Silva.

Coimbra, 22/03/2026

 

Obs.:

Para os mais cépticos, todas as afirmações

contidas nesta narrativa,

estão devidamente documentadas.

 

Nota:

Continuo com a minha “burrice”;

Não faço uso do AO90

 

 

 

  

 

 

   

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

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