sexta-feira, 20 de outubro de 2017

OS CARRAPATOS

Ai de mim, se algum dia deixar de usufruir da
competência de me amotinar contra a falsidade
 e a adulteração da razão; realizem o hipócrita
 ritual fúnebre e procedam à minha incineração,
porque estou liquidado.
(A. Figueiredo)



OS CARRAPATOS
(Um pouco de carrapatice biológica)

Esses “pequenos” animaizinhos artrópodes, da classe dos ácaros, de epiderme constituída por quitina, elemento este, que lhe confere uma óptima armadura e lhes possibilita, além de uma desmedida resistência exo-esquelética, também uma boa aclimatação, acobardada mas maliciosa, a todas adversidades “climáticas” que se lhes deparem.
A sua coloração que pode ir do negro passando pelo cinzento ao castanho dourado, e o seu objectivo é passarem a puta da vida a chupar-nos o sangue depois de nos terem anestesiado com os seus discursos ignificados de prometimentos que não têm cumprido e de uma esperança que se tem esvaído à nascença; mas têm conseguido manter a sua laboração plena, com consequências desestabilizadoras da nossa tranquilidade.
É hora destes parasitas zarparem do couro do povo português, já tão sofrido pelas mazelas provocadas pelas suas picadas. Provavelmente oriundos da Índia, onde, segundo se consta, são aos montes e das mais variadas espécies, - mais de oitocentas – devido ao contraste do clima; húmido e sêco.
O certo é que, desde que alguns embarcaram de mansinho nas caravelas portuguesas, quando Vasco da gama andava por aquelas bandas a coçar a sua zona testicular, nunca mais nos deixaram em paz.
Há-os há muitos anos aninhados no nosso pêlo, por todos os cantos do nosso costado, a saciar a sua insaciável determinação de hábeis hematófagos, glutões de sangue, seu vício geneticamente enraizado.
Alguns já fazem parte de uma “elite” carrapateira, no seio da qual comungam dos mesmos vícios e das mesmas ideias, ainda que falseadas, com carrapatos de outros géneros mas de idêntica índole; confortavelmente acocorados em meia-lua e regulados por um carrapato palerma, dali destinam qual a fatalidade que irão dar às nossas artérias e quais as que calham a cada um deles para chuchar até à exaustão, a última gota do líquido vermelho que nos dá vida.
Carrapatos asquerosos, perigosos, repugnantes, limitados na inteligência e por natureza licenciados em sacanice, têm sido muito piores do que a sarna; porque, a escabiose ainda tem uma terapia rápida, mas os carrapatos são de difícil extinção.
 Isto porque, além da sua proliferação ser grande, quando se agarram não largam, e, com excelente e bem aparafusada obstinação, protegem os afectos ao seu semicírculo, bem assim como outros parasitas, ainda que, apesar de diferentes, com eles mantenham boas relações de ”amizade”, nem que esta seja por conveniên
 cia.
Torna-se imperativa a sua caça.
 “É preciso cortar-lhes a cabeça”, ou… puxar-lhes as rédeas e refrear-lhes a andadura.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 20/10/2017
www.antoniofsilva.blogspot.com