PALHAÇO



Neste Mundo circense, não há falta palhaços;

Existe sim, carência de mágicos.

(António Figueiredo e Silva)

 

PALHAÇO

 

Por mera casualidade, deparei com esta frase postada por alguém, no Facebook; a ver pela pluralidade de ofícios que conglutinam o quase infindável recheio da frase, lembrei-me de discorrer sobre um. O qual, apesar de parecer ridículo, é uma profissão que tem muito que se lhe diga; palhaço. Ser palhaço, não é fácil!? É natural até, que eu esteja aqui a fazer esse papel, porém o meu propósito é bem diferente; é colocar um “espelho” à frente de cada espectador, para que se reveja a si próprio, antes de sorrir perante as diversas “palhaçadas” que pela frente se lhe deparam.

Essa “divertida” figura, (palhaço), de todos muito conhecida, é seriamente valorizada por mim. Porque, esse artista, mesmo encurralado num “bosque de espinhos” em amargurada tristeza, é capaz de ter resistência para, “jovialmente” rir e galhofar, tendo como único objectivo, fazer rir o mundo, como permuta para a sua subsistência – muitas vezes comprimida inusitada melancolia.

A angústia de um palhaço, pode muito bem ser fruto do confronto entre a alegria ligeira e a dor que lhe massacra o íntimo. Simplificando; em situação de necessidade, trucida a si próprio, para satisfazer o prazer daqueles que no momento do “espectáculo”, o admiram e aplaudem.

Geralmente coberto por umas roupagens anedóticas, o rosto tingido por várias cores que lhe encobrem os desgostos e as lágrimas, – se no momento as tiver -, de onde sobressai um nariz abatatado, usualmente pintado com pigmento vermelho-vivo, a esboçar um “sorriso aberto” e fantasioso, que deleita multidões de adultos e crianças, em todo o Mundo!

Porém, se quedarmos para raciocinar, o Mundo em que vivemos é mesmo isso; é uma actuação circense, onde, com acentuada frequência, o carpir de uns, confere alegria a outros – suponho que aqui não há dúvidas. Existe uma troca entre a benevolência e o cinismo. Diferentes, sim; contudo, um não passeia sem o outro.

E é deste modo que muita gente lacrimeja ou sorri, para forçar a coesão na estabilidade global, enquanto o mundo, obstinado na sua obcecação natural, aos poucos vai descambando!

    Assim sendo, todos devíamos ser bem pagos, porque, ao longo do trajecto da nossa existência, degastamos o tempo fazer encenações do palhaço. Uns por falta de orientação cabeçal, outros motivados por infecção gananciosa, e ainda outros, os verdadeiros palhaços, por carência económica e de subsistência.

Analisando friamente esta questão da palhaçada, mesmo aqueles que têm tudo, sentem que não têm nada; daí resulta o sentimento de infelicidade, que eles procuram diluir numa expressão “contraída-jovial”.

Por conseguinte, não existem recursos económicos, para satisfazer o desejo alienado de toda esta turba de “palhaços”. No entanto, lamento que essa fantasia não possa ser concretizada, todavia, continuo na minha; o ofício que é mal pago e devia ser o mais bem remunerado, é a ocupação de PALHAÇO.

Cargo a que dedicamos a maior fatia da nossa vida.

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 27/01/2026

 

Nota:

Não faço uso do AO90.

 


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