quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

LAMENTÁVEL



 O ministro da Saúde recusou hoje considerar assustador o registo da Direção-Geral da Saúde (DGS) de  ocorrência de 700 mortos nos primeiros20 dias de Janeiro nas urgências dos hospitais públicos.

(Lusa)

LAMENTÁVEL

Seja qual for o patamar que ocupa na comunidade e mesmo que essa situação seja causa de inúmeros privilégios na vida, há um facto que é imutável: o carimbo genético. Deste, o indivíduo não pode dispor segundo a sua vontade; apenas tem que resignar-se a ser aquilo que é. É daquele nano-universo que germina o bem e o mal, em quantidades equilibradas ou desiguais, outorgantes da faceta de cada pessoa. É esta chancela que autentica a personalidade onde residem os benignos e as malévolos atributos que, por muitas voltas que a criatura tente dar para se desamarrar daquilo que ela não gosta de ser na realidade, nunca o conseguirá, mesmo fingindo. Isto porque, deparam-se sempre uma ou várias circunstâncias em que o ser, abre o sarcófago do íntimo e mostra as vísceras genéticas do espírito, como aconteceu com o Ministro da Saúde, Paulo Macêdo.

Setecentos mortos em 20 dias, nas urgências dos hospitais públicos, “não tem nada de assustador”.

Sim, o Sr. Ministro tem razão! Nada tem de assustador. Assustador porquê? O que tem - de inconveniente - é ser lamentável.

Lamentável, porque o Sr. Ministro da Saúde jamais deveria ter articulado estas palavras, cujo conteúdo é susceptível de ser interpretado como um frio e desprezível desinteresse – se calhar verdadeiro – pela colmatagem do deficiente atendimento às mazelas das pessoas que dependem do apoio do Ministério que dirige, e consequentemente, da sua protecção.

Lamentável, porque seres humanos deixaram de ver para sempre, a parte bela, ainda que materialista, que a Natureza lhes podia oferecer aos sentidos, talvez por não terem sido socorridos em devido tempo e nas mais convenientes condições.

Lamentável, porque é sabido que estas nefastas ocorrências se reflectem mais em pessoas de avançada idade, que ainda se encontram, bem ou mal, no gozo de uma situação para a qual trabalharam durante a sua vida.

Lamentável, porque o governo, através do ministério da saúde, tem procurado conter os “esbanjamentos” com a mesma (saúde), colocando em causa a saúde da toda a população nacional, cuja incidência afecta mais os reformados, inválidos e outros doentes sofredores, com o finamento no horizonte sombrio da eternidade.

Lamentável, por sentir que é necessário deixar que corações deixem de bater e palatos arrefeçam, para o equilíbrio das contas públicas que, mercê da sua contabilidade e fiscalização patologicamente infectadas pela incúria, permitiram toda uma série de situações, desde o esbanjamento e ao que parece, roubo.

E continuará a ser lamentável, enquanto alguns dos governantes ou familiares não sentirem a necessidade imperativa de recorrer aos serviços de urgência e tiverem que sujeitar ao atendimento comum, bem instalados numa maca durante uma séria de horas e acabarem por sair de lá frios, esticados e com a rolha enfiada no esfíncter anal.

Se alguma vez isto acontecer, que é improvável, certamente que muita coisa deixa de ser lamentável.

Lamentável é também eu lamentar ter que dizer, que é LAMENTÁVEL…Mas não consigo ficar silente a remoer reflexões de indignação para alimentar uma quietude dissimulada.
Se o fizesse, seria também… LAMENTÁVEL!


António Figueiredo e Silva
Coimbra, 26/012015

Ou:
www.antoniofsilva.blogspot.pt

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