quinta-feira, 18 de julho de 2024

DA GUERRA NO ULTRAMAR

 

Quando os ricos fazem a guerra,

são sempre os pobres que morrem.

(Jean-Paul Sartre) 

 

DA GUERRA NO ULTRAMAR

MOÇAMBIQUE

(Com as restantes ex-colónias sucedeu o mesmo)

 


    Distrito de Cabo Delgado. Conheci bem aquela faixa no norte do Moçambique, que à época, fazia fronteira com a Tanzânia, tendo como linha demarcadora o Rio Rovuma.

Eu andei por lá, e, protegido pela sorte ou pela força Divina, não bati a caçolêta.

Lamento, no entanto, com evidenciado pesar, aqueles que compulsivamente deixaram este mundo, sem pressa nem vontade de o ter feito; que Deus os comtemple com a quietude celestial de que são dignos.

Tudo o que fizeram, enquanto possuíram a sua actividade plena, foi para conservar a tranquilidade existencial entre povos, atidos a formas de pensar, costumes, e credos distintos. Muitos desses corajosos ficaram por lá esquecidos, ou, sei lá, foram papados por alguma Kizumba (para quem não saiba, hiena em Shimakonde), porém, seu sacrifício foi imprescindível; tanto para os que por lá se mantiveram, como para a diáspora de outros, que daquelas terras zarparam de mãos vazias, com uma mão atrás e outra frente, assustados e desnorteados, e, por força das circunstâncias, terem de recomeçar uma nova vida, numa “nova” sociedade, que nem por isso os recebeu com a dignidade que moral e eticamente lhes era devida.  

Hoje, se alguns desses “heróis” ainda existem, - como eu -, estão tolhidos pela velhice. Uns, artríticos, outros moucos ou ceguêtas, com a capacidade de raciocínio debilitada, e são parcamente valorizados pela missão que em tempos idos, lhes foi atribuída cumprir sob a égide da decidida frase: “Em defesa da Pátria”.

Essa defesa, que encheu os bolsos a muitos oportunistas e gerou muitos penduricalhos suspensos ao peito de sumptuosos uniformes, resultou num verdadeiro desastre. Um autêntico cântico à derrota. Mas, adiante.

Neste instante, recordo em silêncio, porém, com amargurada saudade, o que por lá observei, e alguns dos bons e maus momentos que por lá vivi.

A idade era outra e o falacioso lençol “cor-de-rosa” da fantasia e a minha loucura aparvalhada, turvavam-me o pensamento. Tudo eram planuras. Mesmo percebendo o perigo que corria, o pavor não se apoderava de meu inquebrável interior. Estava mesmo psico-adaptado - como hoje é defendido em psicologia, a vida obedece a uma sequência de estágios que tocam a todos nós, quer queiramos, quer não.   

A partir de faustosos gabinetes, todos éramos, como simples marionetas, co-mandados por aqueles que levavam os louros, sem nunca terem dado o corpo ao manifesto, sem terem disparado um tiro, e sem serem atingidos por alguns fragmentos de metralha que a muitos ceifaram a vida, ou pereceram entalados e enlatados dentro de uma aeronave ou catapultados aos fanecos por uma mina traiçoeira ou ainda atravessados, siderados e desfeitos por uma granada de bazuca. Tudo isto sconteceu.

Eu compreendo que a guerra é assim. O que não alcanço é porque é que o ser humano a promove?!

Como tantos, passei por variadas privações; usufruí momentos de prostração e de revolta, inquietantes; tive sonos e alimentei fantasias, pouco repousantes e perturbadoras. Percebi o que é passar pelas brasas, esticado sobre um “colchão” plaino e duro, de cimento frio; entendi, que muitas é vezes tem de se comer o que não se gosta – o apetite e a necessidade a isso obrigavam; suportei engolir em sêco a ouvir o que não desejava – porque a meu ver, a razão não era justa, mas a obediência assim o impunha; aprendi a fraternizar com pessoas inteligentes e ponderadas, com quem fui ao longo do tempo, limando e polindo a minha maneira de ser, e a gerir e ponderar as minhas atitudes; não consegui evitar, contudo, a convivência com “calhaus”, autênticos cêpos, com as cabeças repletas de bosta, armados em xico’espertos, que me serviram de bitola comparativa para a afinação da minha moral e da minha ética; princípios pelos quais sempre me procurei orientar durante toda a minha existência. Mesmo hoje, só falharei, se o meu encéfalo me atraiçoar - estou sujeito, quem sabe?!

Mas compreendi que a vida é isto. Tudo o que dela germina, quer de bom quer de mau, são lições que temos de apreender, e, acima de tudo, compreender, para podermos fazer uso delas, riscando, é certo, do nosso cardápio consensual, aquelas que a nossa moral condena.

Vi e aprendi tantas coisas por aquelas terras, que considerava colocadas no fim do mundo! Para concluir que, afinal, qualquer lugar supostamente situado no fim do mundo, pode, do mesmo modo, estar colocado no princípio do mesmo.

A retomar o tema:

Aquela guerra, que poderia ter sido evitada, foi sustentada pela juventude de várias raças, cores e crenças, que após algum tempo de lavagem cerebral militarizada, lhe era entregue uma arma como companheira, e agora… desenrasca-te; ou matas quem não conheces e nunca te fez mal, ou és morto por um desconhecido, que, sem te conhecer também, foi ensinado a odiar-te.

Esta permuta surda e muda de valências promovida por “entendidos”, é que tem originado as guerras! O Inferno da Humanidade.

É aqui que reside a razão da incoerência da guerra.

A mim, deram-me “asas” para voar, e, com alguma sorte, sempre consegui aterrar inteiro; nem sempre imune a algumas chumbadazitas de “canhagulo”, (espingarda antiga, de carregar pela bôca), ou uns “furitos” provocados por balas de metralhadora; mas sempre consegui chegar a terra com o canastro inteiro e o ânimo renovado; a outros “ofereceram” metralhadoras, canhões, morteiros e outros artefactos, “benfazejos”, mas malditos, que eram obrigados a utilizar, para se manterem a respirar.  

Uns ainda tinham a fadário de saborear umas refeições malfeitas, mas quentes, em quanto que outros, infelizmente, se vingavam numas rações de combate, a sua sobrevivência obrigatória, regando sob estrita moderação o precioso líquido H2O, que o seu pequeno cantil continha.

Havia também, os que podiam desfrutar de uma cama “limpa”, dentro de instalações erguidas para o efeito, mas mão se safavam à selvajaria manhosa dos percevejos, que com o uso de anestesia endovenosa, atacavam pela calada da noite; outros, coitados, cavavam buracos e abriam sulcos, que depois cobriam com ramos e folhagem, para se camuflarem e observarem até onde a visão podia alcançar, no esforço hercúleo, vezes sem conta frustrado, de zelar pela sua sobrevivência e a dos colegas. Era imprescindível o ôlho-vivo e os ouvidos isentos cerume. Qualquer estalar de um gravêto, poderia ser o início do fim.

Vi alguns sem cabeça; outros, sem um braço, sem uma perna ou sem ambas; sem um ôlho, ou completamente inertes, com o corpo parcialmente desfeito por uma bazucada, ou por outra qualquer munição de artilharia.

Posso falar ainda, daqueles que, depois de uma tempestade tropical, ficavam todos encharcados; as viaturas atoladas na lama, e, para concluir a falta de sorte, os velhos emissores movidos por uma manivela, quando lhes dava na venêta, também se recusavam a operar. Era uma grande chatice!

Com o conhecimento antecipado da área para onde se tinham deslocado, lá íamos nós, com olhos de falcão, encurralados num velho e barulhento “avoão” Harvard T-6G, previamente munido com uma bateria de rockets, sobrevoar a vastidão daquele espaço tropical com vista à localização da coluna, para posteriormente procedermos ao lançamento de pão, e outra “mercadoria”, que era a mais almejada de todas; o correio! Os sacos com os aerogramas, as cartas dos famíliares, das namoradas, das correspondentes, das madrinhas de guerra, e determinado correio oficial.

Quando localizávamos a coluna militar, a vista aérea, era o suficiente para avaliarmos a situação aflitiva em que ela se encontrava; viaturas semi-enterradas na lama  e rodeadas por água, sem dali poderem sair; o pessoal dos seus efectivos, devido à camuflagem da farda que usavam, mais pareciam conjuntos de rãs graúdas, do que pessoas, a passarinhar por aqueles “lamaçais” pastosos, coloridos por lama, água barrenta e amarela, onde as botas se afundavam; vezes sem conta, aquela barrela cremosa atingia a zona testicular - isto até era uma benesse, porque ajudava a serenar os ânimos mais libidinosos da maralha. Uma decepção e tristeza!

O nosso íntimo carpia, mas nada mais podíamos fazer, além dos posteriores lançamentos de víveres ou dar-lhes uma protecção periférica, em caso de ataque lançado pelo “inimigo”.

Não podíamos ir mais além, porque no tempo em que por aquelas bandas permaneci, ainda não tínhamos, “zingarelhos” (helicópteros).

Acho que me vou quedar por aqui.

Estou a sentir-me cansado da meloa, e irritado por encetado esta viagem no tempo. Pode ser que algum dia, se a senilidade não atacar, eu diga mais alguma coisa.

Agora vou fazer uma aproximação para encetar a minha “aterraige”, porque a minha disposição, mais não consente. Estou nervoso!

Porém, vou fazer uma “borregagem” (abortar a aterragem), e, antes de concluir a próxima “aterragem”, apraz-me questionar:

Para que serviu aquela guerra? Foi em vão, não foi?! A meu ver, não.

Serviu para atulhar o alforge a um sem número de pançudos, enriquecer alguns oportunistas, e medalhar quem disso não era merecedor. Foram os únicos que lucraram.

De resto, nenhum dos povos ficou beneficiado; nem nós, nem eles. A À data presente, ambos têm a sua nação super-hipotecado, e estão submetidos ao poder estrangeiro, ao qual, obrigatoriamente têm de prestar vassalagem.

E, NEM PIO!

 

António Figueiredo e Silva.

Coimbra, 18/07/2024

 

Observação essencial:

Isto foi realidade.

Qualquer comparação ficcionista,

será pura parvoíce, leviandade ou

maluqueira congénita.

 

Nota:

Não faço uso do AO90.

 

 

      

 

 

sábado, 13 de julho de 2024

A FILOSOFIA

 


Não basta conquistar a sabedoria,

é preciso saber usá-la.

(Cícero)

 

A FILOSOFIA

 

    Na minha compreensão, é a faculdade utilizada pelo entendimento humano, para a defesa de teses distintas, consideradas pelos seus defensores, como únicas, credíveis e não rebatíveis. Deste modo, presumindo-as no limiar da razão absoluta. É capacidade de, como seres pensantes, podermos reflectir e questionar sobre a nossa existência, com recurso ao uso da “única” liberdade que nos resta; o pensamento.

Por isso, ainda que considere a minha sabedoria muito aquém da realidade do entendimento, apeteceu-me, através desta singela composição vocabular, “filosofar” sobre o assunto tão vasto, sublime e atraente, onde as questões e as reticências não param de fluir, que é a filosofia.

Porém, a pureza da sabedoria nesta matéria, obedece a um movimento sinusoidal de tal magnitude, que nos permite não só, distorcer e destronar a razão da própria razão, bem assim como arrancar-lhe o seu poleiro absolutista, transformando-a noutra razão, porém, de contornos diferentes, por razões que própria razão desconhece.

Quero com isto dizer, que a razão, com toda a realidade que contempla, não deixa de existir; o que varia é o conjunto de coordenadas intelectivas, que conduzem à sua existência. Essas orientações, eu titulo de atributos da lógica. E é pelos carris por ela formados, que a nossa intelecção viaja pelo infindável universo do conhecimento.  

Sempre me capacitei de que na ausência da artéria filosófica no entendimento, ninguém se entende. Isto porque, a filosofia, quando manuseada por especialistas na essência, pode sustentar uma simbiose na compreensão, onde que gregos e troianos possam viver em pacífica comunhão; em pacífica comunhão.

Tenho p’ra mim que, entre a razão no entendimento e a razão absoluta, - ainda que, distintas, comem na mesma távola redonda do nosso intelecto.  É nesse espaço circular da transcendência que são alimentadas; embora com comidas diferentes, contudo semelhantes no seu paladar. Isto porque a razão jamais deixa de existir, esteja ela de que lado estiver. É o princípio que medeia entre a sensibilidade humana e o universo que a ultrapassa, e se situa fora da nossa compreensão.

Por muitas voltas que lhe queiramos dar e artifícios consigamos entrelaçar, nunca os fundamentos finais desaguam no oceano do absoluto; assentam sempre no domínio da dubiedade.

Apesar das conclusões a que possamos chegar, a realidade será sempre envolvida pela autocracia da incerteza. Esta, sim! Tenho a certeza de é a ocorrência dominante para todas as questões que possamos colocar.

No entanto, não discordo de que a prestabilidade das deduções filosóficas, são de grande utilidade à nossa vivência. Isto é, quando são bem aplicadas, elas incitam-nos à meditação e ao raciocínio, que considero os dois pilares que suportam a estabilidade da nossa emoção, bem assim como garantem uma ajuda para iluminar a nossa compreensão e aprimorar o nosso comportamento no mundo em que vivemos.

A amplitude do conhecimento não tem fronteiras. Por muito que saibamos, há sempre mais para descobrir e questionar.

Assim, sem discordar da imortal frase “só sei que nada sei”, do filósofo grego Sócrates, igualmente não duvido, que, para atingir esta radiante conclusão, é necessário saber alguma coisa para chegar ao desfecho de…  saber, que nada se sabe.

Paradoxal, não é?!

É filosofia.

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 13 de Julho de 2024

 

www.antoniofsilva.blogspot.com

 

Nota:

Não faço uso do AO90.     

 


quinta-feira, 20 de junho de 2024

ABORTO À PORTUGUESA, SÓ CÁ.

 

Nota:

É usual dizer-se, que, “recordar é viver”.

Nesse sentido, esta agridoce resenha, escrita em 29 de Junho de 2012, é só para “recordar” -, sem ainda ter arredado da minha opinião, claro.

 

 

ABORTO À PORTUGUESA, SÓ CÁ.

 


Só aqui.

Só neste país se “manda o Zé às compras” e os outros que paguem a mercadoria. Se isto não cabe na cabeça de ninguém com juízo, muito menos na minha que não o tem.

O vigente governo, aiiinda, estááá, a estudaaar, a iiimplemeeentaçããão, de taxas moderadoras para a interrupção voluntária da prenhez.

Realmente é um descomunal problema, fruto de um caso bicudo e duas bolas de esperma, que agora faz o nosso Ministro da Saúde (ou da doença), andar num rodopio em permanente veladura, para espremer ainda uns “tostõezitos” através da aplicação de mais umas taxas moderadoras, que há muito deviam ter sido aplicadas.

Não penso que seja necessário fazer tanto alarde e chamuscar os miolos à volta de um facto onde a subjectividade não afecta a clareza da razão. Sou de opinião que o Ministro da Saúde tem por direito dormir descansado, perante um facto que apresenta tanto de mau como de ridículo; “a interrupção voluntária da gravidez”.

Mau, porque existe uma permissão legal e uma falta de senso materno para a liquidação de uma existência, em princípio naturalmente concebida. Ridículo, porque o estado se substituiu a uma responsabilidade em que os contribuintes são, por arrasto obrigatório, injustamente responsabilizados pelo pagamento integral decorrente das “cavaladas” que outros cometeram em pleno deleite e perfeito juízo.

Há muito que a situação do aborto me anda a coriscar no cérebro e penso que chegou a hora de morder, se bem que, anteriormente já tenha rabiscado algumas críticas.

Abertamente, eu sou contra qualquer taxa moderadora nesse sentido; quem o deseja efectuar, deve pagar integralmente as despesas inerentes ao “matricídio” autorizado e não tem peva a arguir.

Com toda a informação científica e tecnicismo actualmente existentes ao dispor da sociedade com total abertura, a procriação está implicitamente ligada à vontade de cada um e pode muito bem ser evitada se assim o desejarem. Assim sendo, o estado não deve despender dos dinheiros públicos para fins abortivos.

Casos existem, em que a radicalidade de que sou a favor, tem forçosamente que ser posta de lado por força das circunstâncias que podem levar as pessoas a este extremo; neste horizonte, já nem taxas moderadoras devem existir, mas sim, a gratuitidade absoluta em todos os serviços necessários à efectivação do desmancho.

São eles, casos de violação compulsiva, perigo de vida para a futura parturiente, aberrações ou anormalidades que coloquem em causa a normal sobrevivência do futuro ser, e outros, cujas razões devem ser avaliadas, que não as de mero capricho ou “distracção”.

À guisa desta crónica opinativa, veio-me à memória um poema do já falecido Dr. Sanches da Gama, pessoa conhecidíssima nesta cidade, pela mordacidade dos seus versos.

Este saiu num guardanapo, quando, certo dia ele presenciou, no já extinto Café Arcádia”, um par de “pombos” em mútuo ensino de “linguística” salivosa.

 

Metam a broa na pá

Porque o forno já está quente.

Mas por tudo quanto há,

Não “forniquem” o juízo à gente.

 

 António Figueiredo e Silva

Coimbra

29/06/2012



Crónicas de um "Crónico"

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 10 de junho de 2024

A VIDA ЖИЗНЬ לעבן ЖИТТЯ LEBEN

 

Não vivas para que a tua presença seja notada,

mas para que a tua falta seja sentida.

(Bob Marley)

 

A VIDA

ЖИЗНЬ

לעבן

ЖИТТЯ

LEBEN

 

Quem nós éramos e ao que chegámos!

Por mais ocasiões que higienizemos o nosso físico, que rapemos (os que rapam), ou besuntemos (os que a besuntam) a face, por mais estilos que possamos dar ao cabelo (quando ele existe), e por mais elevado que seja o nosso desejo em sermos sempre novos, o ciclo de vida é inflexível; é um verdugo obstinado em manifestar os seus propósitos, à revelia da nossa vontade.

Ele supera todas as maquiagens, todas os modelos de “tosquia” e todas as saponárias e perfumes com que tenhamos incensado o nosso corpo.

Com o passar do tempo, ele, com lentidão aparente, vai-nos oxidando, e, quando damos conta, física e intelectualmente, já não somos os mesmos. É evidente que o tempo mantém a sua inércia inalterável; nós é que, absortos e embriagados por alguns prazeres, que infelizmente não são outorgados a todos, vamos percorrendo o espaço temporal, sem disso nos apercebermos. Vamos passando por ele, e não é ele que passa por nós.

Assim sendo, ainda não tenho a certeza se a nossa existência é uma dádiva bondosa que a Natureza nos ofereceu ou se uma artimanha com que nos contemplou. A minha confusão é de tal magnitude que por vezes me deixa apreensivo por momentos, (como este), e desorienta o rumo da minha compreensão. Não desconheço, porém, que esta questão transcende o meu entendimento; contudo, não considero obstáculo que impeça a minha dissertação sobre o assunto, mesmo que possa ser considerada uma idiotice. Sou naturalmente teimoso. A culpa não é minha. Foi assim que geneticamente a Natureza me produziu. Considero-me um ser cósmico, curioso e amante de questionar o desconhecido, enquanto os meus neurónios encefálicos a isso se não recusarem; porque, com o andamento no périplo temporal, as suas junções nanométricas também se vão desgastando, e entre eles deixa de haver comunicação – ficam “zangados; o que pressupõe paradoxalmente, o início do fim, para o recomeço.  

Bem, evidenciando os meus frágeis conhecimentos acerca do Universo, está mais que provado, que tudo o que nele existe está em movimento perpétuo - até prova em contrário. Contudo, para que essa imortalização cinética se conserve, existem várias mutações na matéria com vista a conceder ao Universo essa eternização. Eu não diria que existe um princípio e um fim; mas admito a existência de uma criação destinada a uma sequente destruição, com vista a uma transformação para um recomeço.       Essa mudança cíclica, é que determina o estado de toda a matéria que nele existe. Bem vistas as coisas, isto até parece um paradoxo - será, mas não é; porque, no final, nada existe que não tenha um princípio. Todavia, para que o começo exista, também é certo que tem de obedecer a um fim.

Tudo o que nasce, já é portador do bilhete de embarque na mão para essa transmutação cósmica.

No caso do Ser Humano, que se tem como um ser pensante único, ele não passa de um idiota, um burro, um ignorante, um falhado. Só arranja problemas para si próprio e para os outros seres vivos que com ele coabitam, criando no seu habitat planetário, uma imagem supliciante do suposto Inferno (digo suposto, porque não conheço outro), por adulterar, graças à sua inteligência rasa, os princípios da selecção natural, arcando depois com todos os resultados nefastos provindos do seu indubitável desconhecimento.

Toda a Vida e a sua boa ou péssima qualidade, depende de nós (refiro-me ao Ser Humano). Porém, já estamos tão enlouquecidos, que não sabemos distinguir o que é benévolo, daquilo que é maldoso. Estamos completamente embrutecidos. A nossa visão mental está ofuscada pela ambição, pela cobiça e pelo poder para uso individual e não colectivo. Estas três componentes é que, em vez de angariarem a paz, estabelecem a guerra.

O presente resumo, por ser redigido por um “palerma”, o seu valor pode ser de apreciação variável; no entanto, atrevo-me a sugerir a todos aqueles que puderem aproveitar os melhores momentos da Vida, que os gozem em toda a sua plenitude, - mas com juízo na corneta; porque quando o fim da duração se aproxima, irão concluir que não foram assim tantos como pensaram. Porque vida é muito curta e efémera. Rapidamente chegará o dia em que quando vos mirardes ao espelho, com profundo espanto, reflectireis: ah!? Como éramos e como estamos!

É nessa altura que concluireis que a vida é um sopro e o estar neste Mundo é um risco - que tem de ser suportado ou vencido.

Quem não possuir resiliência para o suster e derrotar, goza de absoluta liberdade para embarcar por conta própria, segundo a sua vontade.

A existência não passa disto. É um “engôdo” da Criação para conservar a eternização do movimento Universal e certificar a Sua Força Criadora.

E todos irão pensar o mesmo:

- “Ah! Quem nós éramos e como ficámos”!?

Mesmo assim, entre adversidades e vitórias, entendo que não é mau viver. Mas, só após o embarque, sem créditos nem bagagens, se verá!?

Pelo menos, enquanto eu respirar e ouvir o assobiar ou rosnar do vento, legitimo que a minha existência é uma realidade – por enquanto.

Depois, direi.

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra 10/06/2024

www.antoniofsilva.blospot.com

 

Nota:

Não uso o AO90.   

   

 

 

 

quarta-feira, 5 de junho de 2024

ULTRAGE À MEMÓRIA DE CAMÕES

 

ULTRAJE À MEMÓRIA DE CAMÕES

 


Foi preciso chegar ao século XXI, para que, do fundo do odre das escórias da arte, germinasse um pseudo-artista, que com meia dúzia de traços tivesse provocado uma dermatose actínica no rosto histórico de Luís de Camões, que deu origem à desaparição da sua face.

Como fervoroso admirador que sempre fui e sou, desta figura, perante a vomitiva indignação, que muito me agrilhoa, o único espaço que resta para desabafar ou metralhar, é a crítica; fuzil do qual me vou socorrer. Para espingardar a direito, e sem titubear.

É provável que os meus conhecimentos de arte, possam ser reduzidos; mas certamente não o serão no seu absoluto - algo cá dentro ainda canta.


Porque arte e beleza, não obedecem a parâmetros restritos e convencionados, contudo, obtemperam a diversos pontos de vista concedidos pela sensibilidade de cada um e constantes no seu estado emotivo; perante o que vê, o momento em que vê, as condições em que aprecia, e até o ambiente que o rodeia; estes é que lhe fornecem a sua apreciação pessoal – contestável, sim, todavia, dificilmente eliminável.

Como tal, e a meu ver, considero este trabalho um aborto da arte! Um arremedo e um insulto à memória de Luís Vaz de Camões! Que foi e sempre será, uma figura de grande peso e apreço da nossa História, e não só, - também mundialmente

Por estas razões, eu irei falar por ele no meu, - talvez acintoso – porém, satirizado cântico, abaixo grafado sob a penumbra agra de uma revolta interior que me sidera o espírito.

 

 

O ULTRAJE

 

1 Com pincéis sem pelo e lápis mal aguçados,

Idiotas desta linda terra Lusitana,
Com conceitos nunca antes descascados,
Não passam de pacóvios de traquitana;
Sem temor da critica e todos inchados,
Mais do que permite a resistência sana,
Entre gente imbecil e boçal geraram
A tosca efígie, que tanto admiraram;

2 É um arremêdo às memórias gloriosas
Daquele trovador que em vida foi narrando
O estado do Império, por terras viciosas
Que por África e Ásia houve andarilhando.
Àqueles que por azáfamas menos valorosas
Se vão da cegueira “colectiva” alimentando:
Espalharei, entoando por toda a parte,
A pobreza do desencanto e a nobreza da arte.

 

3 É p’ra esses medíocres convencidos,

Que que em qualquer borrada vêm arte,

Que nada se compara à dos tempos idos!

Beleza é beleza, borrões e rabiscos à parte.

Mas, nestas ou noutras ilusões descabidas,

Há sempre quem não falte ao embarque.

Ou por débeis alienações compelidos,

Ou p´ra tentar governar a sua parte.

 

4 E é na imensidão do Universo complexo

Que assim rodopia este Planêta agreste

Em que é sempre exibida no seu inverso

Qualquer futilidade que pr’a nada preste.

Na tentativa de embustear os palonços

E poluir a fraca inteligência que lhes reste,

A aldrabice trilha por caminhos esconsos.

Não é parecida; é bem pior do que a peste.

 

António Figueiredo e Silva (1-2)

Coimbra, 05/06/2024

 

Nota:

Não uso o AO90.

 

Obs:

Já sei que esta crítica incentiva

à venda de mais cunhagens,

devido à patetice de muitos.

domingo, 2 de junho de 2024

O IDIOTISMO


 

Duas coisas são infinitas:

o universo e a estupidez humana.

Mas, em relação ao universo,

ainda não tenho certeza absoluta.

(Albert Einstein)

 

O IDIOTISMO

 

    É atributo próprio de indivíduos bagageiros de um físico com espírito, porém com o cérebro de reduzida dimensão, ou mesmo, inexistente. São massas encefálicas com características áridas, onde a erudição não medra - é evidente que os “burros” não têm culpa de terem nascido burros -, contudo, são estes atributos naturais que empurram estes patetas para o purgatório da ignorância; o estume tóxico que faz abrolhar a agressividade, a estupidez, a imbecilidade, a rusticidade, a patetice, que culminam na falta de civilidade, o ponto forte da estupidez.

Na cegueira da sua nata ignorância, é natural que “cogitem” um dia serem compensados no além, brindados com um pacote de indultos, escutando a sonoridade de uma melodia seráfica.

Contra isso, nada tenho a contradizer, pois é um conteúdo de confiança própria. Só eles é que sabem. E, além de ser uma questão de crença exclusiva, é também uma matéria que consiste numa filosofia pessoal enraizada num oásis de ignorância - que bastante os deve supliciar.

É por isso que encontramos alguns comentários estúpidos, agrestes, animalescos, grosseiros e incivilizados, que metem asco ao mais pacato dos mortais (menos aos “burros” ou mentecaptos), que nem merecem qualquer réplica. É preferível deixá-los sós, em solilóquio, a tocar a sua “música sacra” no corêto do vazio.  

Sim, esta serradela é direccionada àqueles que se sentem felizes ao recorrer a vernaculismos e/ou insultos, que são indigestos às pessoas de boa paz e amantes da ética e do civismo.

Apesar de haver liberdade para tudo, existem estatutos que a cercam e princípios regem e tutelam os valores dessa mesma liberdade, mantendo-a dentro do seu círculo limitador. São formas ou maneiras de preservar a paz e a estabilidade colectivas, que nos permite viver num Mundo melhor.

Para isso, existe o PODER e o DEVER. PODER, todos podemos fazer tudo o que nos der na real-gana; porém, o mais importante, é saber se devemos ou não fazer - é no espaço que medeia entre estes dois pontos, que se situa a ponderação, a consciência e o conhecimento.

No entanto, o primeiro pressuposto, (PODER), está ao alcance de todos os seres pensantes, e é extensivo a todas as “cáfilas, récuas, varas” e outros seres análogos; a segunda premissa, (DEVER), abrange somente os sensatos, os judiciosos e os ponderados; os que tiveram a sorte do hélice do seu ADN os haver “traçado” com uma massa encefálica bem facetada e de polida nobreza. Ou seja, com capacidade para raciocinar.

Porém, isso não impede (ou não deve obstar), a que “todos possam ser livres” de dizerem e materializarem (?), tudo o que lhes vem à mona, mas… se o não fizerem dentro dos parâmetros da civilidade, porém no âmbito da parvoíce, sujeitam-se a serem os tapetes rascas onde a crítica social limpará as suas botas.

Antes de terminar, entendo também ser minha obrigação, exprimir o meu mais afincado reconhecimento aos idiotas; sem esses “nabos”, o meu êxito, certamente que seria mais reduzido.

A todos, um GRANDE ABRAÇO, deste velho Combatente de Mueda…

…que ainda preserva a “pancada”.  

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 02/06/2024

www.antoniofsifsilva.blogspot.com

Obs:

Confio que não venha por aí alguma “vespa velutina”,

de ferrão aguçado, pronta para picar a minha mioleira.

    

Nota:

Não uso o AO90

 

sábado, 1 de junho de 2024

SER CRIANÇA БЫТЬ РЕБЕНКОМ צו זיין אַ קינד EIN KIND SEIN БУТИ ДИТИНОЮ

 

Os nossos filhos, para nós, (pais),

 são eternas crianças.

(Milay Costa)

 

SER CRIANÇA

БЫТЬ РЕБЕНКОМ

צו זיין אַ קינד

EIN KIND SEIN

БУТИ ДИТИНОЮ

 

        Ser criança é o expoente máximo da Criação.

Assemelho a criança a uma borboleta que, bamboleando com o bater das suas asas, despreocupadamente sobrevoa o florescente jardim da inocência. Contente e alheia às adversidades do futuro que um dia a irão surpreender, ela salta, brinca, lacrimeja canta e ri.

Vive a vida despreocupadamente, sem jamais idealizar que o porvir nunca é tão claro assombroso como a aurora matinal que a deleita, em dias de céu limpo.

Na imaginação da criança, o Mundo faz parte de uma magia, que ela não compreende, mas admira e sente contentamento. A vida para ela, é um conto de fadas,

Lamentável é, que estes predicados não estejam ao alcance de todas as crianças. Tantas que padecem e expiram sem culpa formada; tantas que já não têm forças para gritar, porque a míngua não deixa.

Bem-aventuradas são aquelas, que são apreciadas como “crianças” até os seus progenitores perecerem.

É um dever de todos os pais.

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 01/06/2024

www.antoniofsifsilva.blogspot.com

 

Nota:

Não faço uso do AO90.

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REVERÊNCIA À MULHER

  Cem homens podem formar um acampamento, mas é preciso uma mulher para se fazer um lar. ( Provérbio Chinês )   REVERÊNCIA À MULHER ...