terça-feira, 16 de junho de 2026

O DINHEIRO

 

O dinheiro representa uma nova

forma de escravidão impessoal,

em lugar da antiga escravidão pessoal.

(Leon Tolstoi)

 

O DINHEIRO

THE MONEY

金錢

ДЕНЬГИ

TIỀN

DAS GELD

धन

די געלט


    Quem o não tem, pode não fazer nada, mas quem o tem não compra tudo, e principalmente a coisa mais rara de encontrar; a felicidade. O dinheiro tem por função servir e não ser servido, se bem que tenha muitos aduladores que lhe prestam vassalagem, atropelam tudo, e até vendem a família se necessário para o conseguir.

Sempre foi o principal causador da ganância, carcinoma que hoje está cada vez mais disseminado, contraindo o bom senso e actuando como uma barreira limitadora dos valores sociais.

Porém, quantos não dariam fortunas para verem uma réstia de felicidade entrar pelas janelas dos seus palacetes?! Quem nada nesse mar monetário revolto, não defeca descansado, não caminha sossegado, não dorme em paz, e, o mais aterrador de tudo, é que não sabe onde os amigos se encontram.

Vive um frenesim e uma preocupação constantes que lhes martirizam a vida, impelindo-os para o desvairo, que por vezes os conduz ao o suicídio.

Vivem um apocalíptico pesadelo até que o corpo arrefeça de vez por morte natural, ou porque alguma bala que teimosamente furou o para-brisas do “cadilac” ou ainda por alguns Kg de TNT, que “generosamente” e sem piedade o enviam para os anjinhos.

Penso que o dinheiro é como a droga; uma vez experimentada a sensação do seu efeito, fica-se viciado; só nos libertaremos do vício compulsivamente e não por vontade própria. Porém, o sofrimento deve ser atroz.

É dinheiro que, em nome da paz tem fomentado a guerra, até aos dias de hoje.

E isto sobrevém, porque as pessoas abdicam de todos os princípios éticos e transformam-se em mercadoria de consumo corrente. Todas as pessoas são vendáveis; é uma questão de subida de parada, e o amor próprio derrete-se e desaparece.

Qualquer tipo mal-enjorcado, com dois ou três dentes na bocarra, mas que possua meia dúzia de vinténs, já se julga grande e arroga-se com estúpida descontração, a desarrolhar o seu espírito mesquinho e a verter cá para fora meia dúzia de baboseiras, que outros calhordas manhosos vivamente aplaudem, pensando no fundo; que ganda besta me saiu! Mas tem dinheiro. É desgostoso, não é?!

Em períodos de perturbação, o cadafalso aproxima-me mais rapidamente das zonas endinheiradas do que do deserto onde a tesura vagueia.

O conformismo é apanágio daqueles que não têm dinheiro, conferindo-lhes uma felicidade interior, que não é alcançada por aqueles que nele chafurdam.

O dinheiro faz com que o ser humano pareça aquilo que não é, e faça o que não deve. Para os sequiosos, é como beber água salgada; quanto mais ingerem, mais secura sentem. É um mal necessário para ser escravizado e não venerado. Coloca as pessoas eufóricas, raivosas, cínicas, incoerentes, individualistas e presunçosas em excesso, mas…  mesmo sendo incongruente comigo próprio, não desgosto de ouvir o silencioso bafejar, ou o tilintar “metálico” da sua companhia. Não sei se por causa da minha ignorância, se da minha compreensão, o certo é, que, talvez por cautela, sinto-me mais seguro.

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 16 de Junho, de 2026

 

Nota:

Não uso o AO90.

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