Por muito rápido que o tempo voe,
a saudade persiste e floresce.
(António Figueiredo)
QUANDO A SAUDADE FLORESCE!
(Hoje deu-me p’ra isto!?)
É verdade!
Quando no interior do
anseio brota a saudade e as circunstâncias
corporais não permitem a realização do passado, resta apenas o esboço de
uma exultação fingida, que com alguma dificuldade se espraia na minha face, já
subjugada pela implacável senilidade.
Agracio o Sr. Mendoça,
- brasileiro de gema -, pela simpatia e
gentileza que teve, em me haver proporcionado uns instantes de prazer que me instalaram
sobre as mitológicas asas de Morfeu, me fizeram sonhar acordado e reviver os meus tempos idos que jamais
conseguirei reconquistar.
É certo que não vou
dizer nada de novo, mas que a existência é uma passagem frugal e ardilosa,
é. Todos andamos apressados, impacientes
e a “salivar”, como o burro atrás da cenoura, convencidos de que a vamos
trincar, sem nunca concretizarmos esse objectivo. É uma falácia da Natureza.
Entretanto, o percurso
temporal vai passando e deixa um sulco onde se aloja a saudade. Esta, por
razões diversas, reflete-se através de um silente grito de angústia ou satisfação,
promovido pelo nosso córtex cerebral, que é o livro da vida, em que nenhuma anotação
nele registada nós conseguiremos apagar, e em momentos oportunos, diversos
trechos nele escritos se nos afloram à mente; são passagens distintas nele lavradas,
que nos podem levar a um derramar lacrimal, um esboçar de contentamento ou a
rir doidamente à semelhança de um fantoche.
Assentado em riba
daquela grande máquina consolei-me!
Por breves minutos,
revivi os meus tempos de loucura há vinte e seis anos passados, em que a
adrenalina me incentivava a velocidades arriscadas, à revelia do bom senso e dos princípios legais!
Agarrado aos punhos e com
o acelerador a fundo, o fender do vento concedia-me uma fresca oxigenação tão
viciante, que nunca senti em outro veículo; nem de avião, - quando a minha
profissão genuína foi relacionada com a aeronáutica, que tantos vôos
me proporcionou.
Apesar de o bichinho da “motoquice”,
ainda cá estar bem grudado e a esfumaçar núvens em forma de persistente
tentação, só raciocino:
- Tem juízo velhote!
Mas algum dia posso perdê-lo!?
António Figueiredo e Silva
Coimbra, 14 de Setembro de 2026
Nota:
Não utilizo o AO90