Para um
trapaceiro, vale mais uma carta na manga,
do que um
baralho inteiro na mesa.
(Jeferson
Guerreiro)
TRAPAÇOCRACIA
(Cracia, deriva de grego, Kratos=Poder)
Além das “Cracias” mais comuns, tais como Democracia, Aristocracia, Autocracia, Plutocracia, Teocracia etc., há uma outra que pode assentar bem no mundo em que temos vivido, porque exibe tentaculares ramificações nas anteriores; a Cleptocracia. Porém, considerando que esta designação é pesadamente depreciativa, – apesar da sua autenticidade -, porque praticamente todos os elementos que até hoje têm vindo a governar o Mundo, não se têm restringido do uso de uma “considerável seriedade corrompida”(?!). Logo, entendo que é “obrigação” dos governados, serem menos hostis, e estudarem a existência de uma outra forma de governação, com um nome mais flexível, e mais delicado e talvez mais saboroso, apesar da parolice que alardeia; como, por exemplo, Trapaçocracia. Julgo ser menos abrangente e menos cáustica do que Cleptocracia (tendência para o roubo). Roubar é uma coisa e vigarizar é outra. Apesar da sua aproximação interpretativa, a sua dissemelhança é notória.
O roubo, que não abdica
de coragem, consiste numa açambarcação de haveres que, sendo de outra pessoa,
passam para mãos diferentes sem o seu consentimento, - e até é punível por lei;
a vigarice ou tipicamente mais conhecida por “conto-do-vigário”, já
requer habilidade, porque é ardilosa, enganadora e normalmente carece de uma
historiêta para ensaibrar e empedrar o cérebro do burlado.
Após tanto matutar, deu-me
na cabaça para discorrer sobre a Trapaçocracia, cujo protovucábulo eu me vi na contingência
de conceber, porque nós, os portugueses, - que eu sinta -, nunca fomos
roubados. O mesmo já não direi, quanto a termos vindo a ser enganados – uma realidade.
Assim sendo creio que o novo vocábulo, Trapaçocracia, será a designação mais indicada, para o efeito pretendido.
Bem,
observado por uma avaliação séria e prisma diferente, o roubo é impetuoso,
rápido e de surpresa, com ou sem intimidações, que, no fim de cometido, liberta
no extorquido uma sensação de vertigem na “caixa-dos-pirolitos”,
perplexidade e raiva, que o apinha de interrogações, por não se haver apercebido
do “mistério” do acontecimento.
A
vigarice é “catedrática”; já requer uma fingida mansidão, sob aprimorada cantilêna,
sempre com recurso a uma narrativa bem pintada, que acarreta uma evangelização,
– lavagem cerebral -, com o desígnio de amolecer ao visado a sua faculdade
psicanalítica, conduzindo-o à aceitação da proposta ou propostas, lançadas numa
conversação cerimoniosa, - ou em discursos colectivos -, onde marinham
promessas celestiais que encapotam uma ardência infernal. Contudo, estas
artimanhas, não compulsam ninguém a aceitá-las. Quando surgem, só dá ouvidos e
aceita quem quer – a democracia cristalina, apenas existe na aceitação. As
dores de parto, surgirão posteriormente, não só para os pascácios que
concordaram, como, por arrasto, para a remanescente “plebe”, considerada uma
“minoria”, - mas provida de dois dedos de testa.
A Trapaçocracia, congrega males implantados na Pseudo-democracia,
como a que temos vindo a viver há mais de meio século, e a maioria de nós tem-se
comportado, não digo como autómatos, todavia, como sonâmbulos. Quando
despertamos da letargia, lastimosamente certificamos que já é tarde para uma
regressão merecida, condigna e justa, muito difícil de adquirir; porque, em
todos os quadrantes da política, em maior ou menor número, os trapaceiros
existem – lei do contrabalanço.
Então, guenta
Zé!
António Figueiredo e Silva
Coimbra,
09/03/2026
Nota:
Não
utilizo o AO90.
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