Com quarenta
horas de vôo, se faz um piloto;
porém,
com quarenta anos de formação,
não se constrói
um Técnico em Aviação.
(António
Figueiredo e Silva)
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| Eu no AB5 em Nampula Moçambuique |
Não duvido que, enquanto
no meu cérebro esvoaça no sonho, a sensação de uma realidade que se encontrava
em apática hibernação dentro de mim, fez exteriorizar a sua presença.
Quando me passou pela
cabeça, ingressar na Força Aérea Portuguesa, a minha intenção era fugir aos
estudos, uma vez que naquela altura, andava na Escola Industrial. A verdade
seja dita; estava a dedicar-me um “bocado” mariolice e à diversão dos
afamados matraquilhos; é o mesmo que dizer: estava a borrifar-me
pró resto, pelo qual os meus pais tanto se sacrificavam.
Tolice da juventude.
Quando um dia olhei para
um anúncio televisão, que versava sobre o alistamento para a Força Aérea
Portuguesa, pensei para comigo: aproveita camêlo; safas-te dos estudos e tens o
problema resolvido, (foi isto que eu, na minha jovem parvoíce cogitei), mas a
realidade não foi bem assim!?
Primeiro a recruta.
Comandada pelo Major Lélio de Almeida Ribeiro, - de quem ainda hoje
alimento saudades. Uma figura, cujos discursos incutiam respeito e cumprimento
do dever; contudo, não deixava de ser uma pessoa ponderada, compreensiva, e
dotada de um fluente poder de dicção.
Hoje compreendo que
não foi muito violenta, (como ainda hoje acontece nas fileiras do Exército),
mas não deixou de não ser um bocado castigadora fisicamente; mas abria os
miolos. Havia, porém, certos predicados
na BA2, que faço questão não deixar entrar em que da livre; as casernas,
eram óptimos aposentos, - que tínhamos de manter sempre em ordem; banheiros
higienizados, providos de água quente e fria a qualquer hora do dia ou da
noite, que era jorrada sob furioso esguicho, através de cromados e asseados
chuveiros, para nos despegar o unto do canastro; após a remoção do estrume sudoríparo,
que, caldeado com pó, atulhava a porosidade do nosso courato, sobrevinha uma
quietude, que domesticava nossa tensão nervosa, convidando-nos a um merecido
refrigério.
A cozinha; naquela
altura, era de requintado asseio; com grandes panelões de aço inox
sempre a brilhar, como eu nunca havia visto; a alimentação que nos serviam, era
um requinte; a messe onde eram nos servido o repasto, muito bem mobilada, com
mesas redondas onde nos sentávamos em jovial conferência pantagruélica e circunstancial
cavaqueira. As refeições principais, eram sempre acompanhadas por uma maravilhosa
pinga de vinho, tinto ou branco, era à escolha, - naquela época ainda só havia
vinho feito de uvas – e se fosse nosso desejo, era permitida a repetição de
comida ou mais um bocadinho da pingolêta.
Já sabíamos que, em
dias festivos, havia carne-de-porco-à-alentejana; uma delícia! Uma obra prima
em gastronomia!
Bem, com a recruta
praticamente consumada e finalizada, esta é concluída com uma marcha a Serra de
Montejunto; já não me recordo da hora de saída, mas eram altas horas da
madrugada, (duas ou três horas), sob uma temperatura invernal, em que o frio era
danado, levando no bolso do capote, como inseparável companheira, uma minúscula
garrafinha de bagaço de medronho, (que eu nem bebi), que a cada um de nós,
havia sido distribuída – talvez por naquele tempo ainda não estar em voga a marijuana;
assim, para lá fomos marchando em romaria militar, para procedermos ao desjejum
matinal. O pequeno-almoço, que não tinha a ver com mesma refeição servida na
BA2, aparentemente lá fez silenciar a nossa reclamação gástrica, até regressarmos
ao nosso prezado aquartelamento, para saborear um lauto almoço. Assim, sim! –
pensei eu.
Agora vinha o Tirocínio;
era baseado no conjunto das especialidades por cada um de nós escolhidas;
porém, concedidas segundo o critério, que, suponho, ser em face das
necessidades técnicas, uma vez que, havia iniciado a Guerra no Ultramar. A mim foi
atribuída a de MMA (Mecânico de Material Aéreo).
Eu tinha idealizado,
(erradamente), que aquilo eram favas contadas, - como é habitual dizer-se.
Afinal “saiu-me o tiro-pela-culatra”.
Ao ter conhecimento
das disciplinas que o meu intelecto ia ter de debulhar, senti-me muito perplexo
e inquieto; porque o Major Lélio A. Ribeiro, na sua última alocução, asseverou
que era necessário estudar bastante, para poder vir a ser um Especialista da Força
Aérea Portuguesa, - e acrescentou -, quem passar no Curso, será Especialista;
quem “chumbar”, será enviado de regresso pelo caminho de onde veio, e
nunca mais o será. E isto aconteceu a alguns, é verdade.
Então, o rol da matéria
apresentada, constava de:
Aviões – teoria; Aviões – prática; Motores –
teoria; Motores – prática; desde os motores de explosão, inflamação
interna aos rectores, abrangendo os Ramject e Scrameject; Electricidade
– teoria; Electricidade – prática; Tecnologia – teoria; Tecnologia
– prática; Instrumentos – prática; Matemática; Física; Intrucção
Militar – teórica.
Amedrontado e
meditativo, passei as mãos pelo couro cabeludo, “arranhei” a minha consciência,
e disse para comigo: “tem calma meu maluco, que vais vencer tudo isto.
Vezes sem conta,
estudei até à 1:30 h da noite…, mas triunfei! Venci, com uma média que me
permitiu ficar entre os doze primeiros classificados; o que me outorgou o poder
seleccionar a Base Aérea em que pretendia ser colocado. Escolhi a BA6,
situada no Montijo; onde permaneci algum tempo, até me ter voluntariado para
Angola, - que não cheguei a ir; porém, fui enviado para Moçambique, com destino
ao AB5 em Nampula, no distrito de Cabo Delgado. Não sem previamente haver
passado pelas Oficinas Gerais
de Material Aeronáutico, em Alverca, para adquirir algum treino especialista
no avião Dornier Do 27, - uma aeronave muito utilizada no conflito
Ultramarino.
Ali chegado, fui ampliando
os meus conhecimentos nos aviões Harvard T6 G; um avião que também foi
fundamental para guerra Ultramarina. Apesar de “sucatas” barulhentas, (a ver
pelas chapas do Overhaull, cravadas no seu interior, alguns deles já
tinham voejado na guerra da Coreia), lá iam cumprindo a sua missão, como idosos
“robustos” a tentar escalar o Monte Evereste.
Sobre Cabo Delgado, se
não é da terra, é do ar, conheci todo o Distrito e a sua extravagante e
“interminável” beleza. Hoje, ao que consta, é terra de ninguém, onde o Estado
Islâmico, cavalga na crista das ondas do terrorismo, a cortar cabeças, decepar
membros e a incendiar haveres daquele povo sereno, que tão bem conheci!
Lamentável!
Voltando atrás. Foi
graças aos ensinamentos adquiridos na Força Aérea Portuguesa onde muito
aprendi e marquei para a minha rota na Técnica da Aeronáutica, que com imensa
satisfação converti na profissão da minha vida, -mais tarde enganei-me.
Quando “levantei
vôo” da aviação Portuguesa, foi com destino a Lourenço Marques; cidade que
não conhecia. Na realidade era outro mundo!
Depois de vários imprevistos, que não aqui
divagar, ingressei nas Linhas Aéreas de Moçambique, (DETA), que já era uma
companhia razoável para a altura, (hoje, não tem um avião), e fazia transportes
com o avião Fokker f27 Friendship, do qual adquiri o Curso; um avião, já
com avançada tecnologia para a altura.
Entretanto foram
adquiridos Boeings 737, (três), dos quais, também obtive dois Cursos,
sendo um deles nomeado Curso de Refrescamento.
Eram e ainda devem
ser, aeronaves dotadas uma tecnologia que não lembra ao Diabo. É meu costume
dizer, por chalaça (mas séria), que esse avião é o pai do Boeing 747 Jumbo.
Essa máquina graúda e tecnicamente muito desenvolvida, da qual também tirei a
especialização na TAP (Transportes Aéreos Portugueses). Antes da TAP
haver adquirido estes, operava com os Boeing 707, cuja especialização,
também tinha vindo adquirir, nessa fabulosa companhia – actualmente, em
desenfreado declínio.
Ainda me desloquei Salisbury,
para, na Air Rhodesia, obter prática no Boeing 720, na altura uma
aeronave que já merecia estar na sucata, mas ainda ia aboando, e passava
pelo Aeroporto Lourenço Marques, onde, como é regulado nas normas em aeronáuticas,
se tornava necessária Assistência Técnica.
À parte de tudo isto,
muito tempo dediquei ao estudo, para conseguir as minhas Licenças de Técnico
de Manutenção Avões, nº 122, (licenciado em Fokker f27 Friendship, cujo
exame, fui fazer no Aeroporto da Beira, (Moçambique), pelos examinadores, Eng.º
Rebelo, da DETA, Verificador Sr. Mário Valadas, e da
Aeronáutica Civil, (a entidade reguladora das normas da aeronáutica nas
Províncias Ultramarinas), um Credenciado Técnico (que já não me lembro
bem do nome), mas mesmo com a debilidade da minha memória, algo me ressalta
como, qualquer coisa, … Salvani.
O exame para a adjunção
do Boeing 737, já foi executado nos hangares da DETA em Lourenço
Marques, também com a comparência “olhométrica” de um Inspector da
Aeronáutica Civil. Não se brincava; os procedimentos inerentes à máxima
segurança das aeronaves, tidos muito a sério tidos como um fanatismo
nanométrico; a sua execução, revisão e verificação final; eram sempre
certificados por três assinaturas.
Estava eu lindamente a
progredir na carreira, e deflagrou o 25 de Abril em Portugal, seguindo-se
o 7 de Setembro em Moçambique; eu, que nunca retraí as minhas emoções
nem abdiquei das minhas convicções, meti-me naquela sarilhada (que, se
tivesse vencido, aquele pobre povo e nós, hoje estriamos em melhor), e fui
obrigado a dar-à-sola, voando o país vizinho, África do Sul.
Para me infernizar
mais a vida, eu, que tinha passaporte oficial, este, havia de caducar uma ou
duas semanas antes, do dia 7 de Setembro.
“Fugi” com um desprezível
Salvo-conduto, que com mestria e astúcia consegui em três quartos de
hora, para ir encontrar-me com a minha esposa e duas filhas que haviam estado
num campo de refugiados em Nelspruit, na Africa do Sul.
Já naquele país,
comecei a trabalhar ma Fields Aviation, - actualmente, Fields
Airmotive -, em Germiston.
Lá, ao fim de um ano,
fui o primeiro português a ser promovido a Assistente de Chefe de Equipa.
Grande parte do meu
caminho, à Força Aérea Portuguesa eu o devo e ainda hoje ma sinto muito
grato; não menosprezando, contudo, a minha natural resiliência.
Mas, não vou deixar
passar em branco: o 25 de Abril, serviu para me derrubar, - e a muitos
outros.
Se eu, à semelhança de
uma aeronave, não houvesse tido resistência e tenacidade para levantar vôo
contra o vento, hoje, estaria na mais abjecta e deprimente miséria.
Hoje, apesar da minha
estrutura combalida pela oxidação da idade, (quase oitenta e dois anos), todavia,
com a minha interação encefálica, ainda em razoável
actividade, faço questão de, antes de encetar a descolagem para o meu
derradeiro vôo com rumo ao éter, agradecer à Força Aérea Portuguesa e a
todas as outras entidades ligadas à Aeronáutica por onde passei, pelas
oportunidades que me concederam para a expansão do meu conhecimento na matéria,
à qual, parte da minha existência com orgulho dediquei.
O MEU ETERNO OBRIGADO!
António Figueiredo e
Silva.
Coimbra, 22/03/2026
Obs.:
Para os mais
cépticos, todas as afirmações
contidas nesta
narrativa,
estão devidamente
documentadas.
Nota:
Continuo com a
minha “burrice”;
Não faço uso do AO90


