terça-feira, 31 de dezembro de 2024

VOU MORRER


 

Os covardes morrem várias vezes

 antes da sua morte; o homem corajoso

experimenta a morte apenas uma vez.

(William Shakespear)

 

VOU MORRER

 

Disso não alimento quaisquer incertezas.

Mas, só p’ra chatear, quando eu embarcar, não direi nada a ninguém. Prefiro manter o silêncio! Porque fala num tom mais elevado e é mais percebível, do que a mais iluminativa dissertação.

Por outro lado, se o fizesse, entendo que iria sentir-me mal, por causa de alguma inveja manifestada por aqueles que gostariam de ter tido a minha sorte, mas, por apavoramento congénito, têm ambulado a chispa-se dela.

Sou mesmo um maluco varrido, não sou? E obstinado.

Sempre assim foi e não me interessa do que esses cobiçosos possam pensar de mim. Se a inveja que sentem fôr de grande carrego, como o qual eles não suportem, que não se abespinhem; podem sempre arranjar uma corda e encontrar uma trave ou uma árvore vetusta, com sombra frondejante e com um ramo robusto para dependurar a “guita”. Depois, é só decidir!?

Meus amigos – e inimigos também. Sim, porque quem não tem inimigos, digo-o com toda a firmeza, não vale a ponta d’um corno.

 A vida obedece é uma dinâmica que desconhece o que em física é apelidado de inércia. Porque, mesmo inerte sei que esse movimento energético não se finda. Mesmo tudo o que à roda existe fora daquela que consideramos matéria mineral ou outras, toda ela, na sua estrutura, existe movimento contínuo e infindável, que renova a sua energia a cada “nanossegundo”.

É o Princípio do Universo, do qual toda a matéria visível e invisível faz parte integrante.

Como tal, a “morte” de qualquer matéria, será a energia de outras substâncias. Quem são, ou o que são, essas outras essências, a mim pouco ou nada me interessa ou preocupa. O que tem que acontecer, acontece, quer queira, quer não.

Agora, com minha vetusta idade, e apesar dos meus parcos conhecimentos da Força Criadora do Infinito, concluí que a Natureza me criou- como carne p’ra canhão.

O que acontece, seja de que forma fôr, mesmo depois de deixar de bulir, ser torrado, desossado, enterrado, podre, ou siderado pelos raios do sol, por ter ficado à mercê dos abutres, ou caído numa ravina, e, inerte e frio, ter ficado à disposição de necrófagos, que entre habituais disputas entre si, me vão arrancar fanecos graúdos ou bocados micrométricos daquilo que de mim possa restar, - até esvaziar o “cabaz”, eu farei sempre parte da Massa Cósmica, e da Energia que lhe mantém Sua Vitalidade e Dinamismo.

A partir daqui, é mistério.

Uma incógnita, que jamais a ciência humana conseguirá desvendar.

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 25/12/2024

 

Nota:

Não faço uso do AO90.

      

 

 

sábado, 7 de dezembro de 2024

RAZÃO E CRITÉRIO

 


 

“Ser ou não ser; eis a questão”.

(William Shakespeare)

 

“A velhice é uma chatice”.

(António Figueiredo)

 

RAZÃO E CRITÉRIO

 

Aparentemente plagiando a famosa frase shakespeariana, acerca do “ser ou não ser”, aqui embrulho o meu conceito sobre a questão do ser ou não ser, ancião.

Para que melhor me consiga fazer compreender, vou recorrer factos de cujas realidades não subsistam dúvidas; não excluindo, todavia, que não possam ser rebatíveis. A meu ver, a pureza da realidade assenta na forma como cada um a vê e sente.

Além disso, há que equacionar a diferença entre ser e estar; que, consequentemente, não significam a mesma coisa.

Enquanto que ser, manifesta uma existência e suas particularidades, o estar, já representa um determinado percurso temporal de um ser, com rigorosa precisão. O ser velho é sempre uma inegável certeza; o estar novo quando velho, é de uma impossibilidade absoluta.

Porém, o facto de estar velho e sentir-se novo, já possível; mas esta condição não desterra a idade a quem assim sente. Ela, a madureza da idade, lá se encontra com deliberação determinada, a fecundar o início da transformação da matéria, que faz parte integrante da massa Universal.

Esta de…1 “eu cá, sinto-me como novo”!!! Não corresponde de forma alguma a um atestado de juventude, porém, ao desafogo de um sentimento emocional – que a ninguém pode ser interdito, como é óbvio. Invencível e obstinada, a vetustez lá se encontra estampada e inamovível; logo, intransferível e inadiável.

É perfeitamente natural e mesmo inegável, a existência de pessoas, que, mesmo com idade acentuada, se sintam com uma vitalidade energética, quer física quer intelectual, que lhes alimenta um prazer “primaveril” de viver. Tudo bem. Cada um é igual a si próprio, e age em função da sua sensibilidade, que não é igual a qualquer outra – a Natureza sempre primou pela dissemelhança.

Mas a idade, essa, por determinação Universal, não encapota a sua fisionomia.

Por isso, a “juventude” da velhice não é somente espiritual; tem a ver com um todo.

É verdade que há seres que “envelhecem” prematuramente; mas não é por isso que deixam de ser jovens. Os anos estão lá, - embora ocultos. Eventualmente, por qualquer imperfeição da trama genética, o amadurecimento normal pifou; e não a idade

E agora, para tentar concluir, como a questão reside em “ser ou não ser”, tenho a dizer que: não estou velho. Sou velho; mesmo velho. Sou vetusto. Tenho 80 anos. Oitenta anos – repito.

Apesar de toda a minha vivência ter sido sujeita à mortificadora constrição das grilhetas da ignorância, - a Natureza assim o determinou -, sempre fiz por aliviar-lhes a pressão e aplicar a folga obtida, para mitigar a minha sêde de saber, - facêta sôfrega e incurável, que até hoje me tem acompanhado.

Tudo, para no fim concluir que não sei nada; porque, quando um mistério é descoberto, surgem outros. E este ciclo processa-se indefinidamente. Muitos mais haverão param descortinar.

No entanto, estou ciente de que quando morrer, vou carregar comigo pelo córrego do incógnito, um bom repositório de ensinamentos que, não digo todos, alguns poderiam ter sido aproveitados para auxiliar a transmutar este mundo-cão, irrequieto e raivoso, já não direi num Paraíso, porém, num Mundo melhor, onde a confraternização fosse uma realidade.

Como se pode atestar, a velhice utiliza sempre a sua implacável chancela para autenticar os seus propósitos atoleimados.

Sou mesmo velho, não sou?!

Se calhar, já nem tenho razão nem critério!?

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 7/12/2024

 

Nota:

Não uso AO90.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

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