domingo, 18 de outubro de 2026

UM PENSAMENTO

 

Quem não quer pensar, é fanático;

quem não pode pensar, idiota;

quem não ousa pensar, um medroso.

(Francis Bacon)

 

UM PENSAMENTO

MỘT SUY NGHĨ

МЫСЛЬ

एक विचार

A THOUGHT

一個想法

EIN GEDANKE

خاطرة

একটি চিন্তা

מחשבה

一つの考え

 


    Se ainda me é permitido pensar, obstino em fazer a vontade à minha vontade em querer fazê-lo, mesmo que o esforço para manter o meu intelecto em actividade seja penoso. Mas, apesar da minha obstinada persistência, algo se passa no meu todo, que já não sou aquilo que fui. O tempo não regride nem sente compaixão por mim. É Natural.

Estou velho. Não sinto constrangimento algum em assumir que estou chancelado pela dureza do carimbo etário, que há mais de oitenta e dois anos, pela surrelfa, me tem vindo a perseguir. Noto que toda a minha estrutura óssea, está enferrujada e laqueia por todos os lados;  não me oferece aquela verticalidade imponente de  que outrora eu gozava, e além disso, ainda me adjudica um caminhar ligeiramente claudicante, que, quando o interrompo para pausar, é frequente surgir uma alma caridosa, dotada de bom poder de observação, e, por altruísmo, amabilidade e complacência, me questiona:

- O Sr. está bem? Precisa de ajuda?

Palavras essas, que, mesmo com os “calos a doer” ou amargurado com sofrimento cardíaco a comprimir-me o peito, - que é o mais frequente -, arranjo sempre um sorriso para ocultar a minha angústia e procuro articular por palavras simples e amáveis, a minha franca gratidão.

A mona, já parcamente pilosa, o que dela resta, está côr de neve, mas no seu interior ainda abriga e protege um encéfalo, que, com razoável faculdade analítica, não com a celeridade que tinha, é verdade, contudo, a suficiente para ainda me conceder a satisfação e a capacidade de espadeirar o indispensável em qualquer contenda, na defesa das minhas asserções.

Mesmo assim, noto a assiduidade de uma apatia que está a tentar vedar-me o interesse por tudo o que me circunda. Para compensar, “vingo-me” a caligrafar. Apesar disso, o meu léxico, vagarosamente tem vindo a ausentar-se; no decorrer de diálogos, já surgem algumas reticências por falta de velocidade no raciocínio, e é natural até, que a sonância da minha voz se tenha modificado; apesar de alguma mouquice, dia e noite sou prendado com música irritante para “adormecer”; contínuos e fastidiosos tinnitus nos ouvidos, cuja “melodia” me faz bailar até esfrangalhar o meu sistema nervoso. Como não podia deixar de ser, também o par olhométrico já foi “assaltado” pelas cataratas, (não do Niagara ou do Iguaçu), cujo nevoeiro me foi debelado a tempo, com mestria e perfeição; agora já me é facultado ver muito bem, notas de quinhentos euros a uma distância razoável, - mas essas malandras recusam-se a dar nas vistas.

A dentição, com a qual eu durante anos, trinquei e roí as côdeas que o Diabo amassou, já não é a minha; dessa genuína família dental de trinta e dois elementos, só restam quatro, e esses já andam a rabujar por uma recuperação, ameaçando que qualquer dia fazem greve ou manifestação, sustentadas por cáries reivindicativas.  

Todo o sistema vascular está seriamente obstruído; tem-me auxiliado a viver, a Cirurgia Vascular do Hospital de Santo António – Porto; quanto às mazelas da parte cardíaca, se ainda existo, ao Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra o devo.

Apesar de todos os arranjos executados nas Oficinas Hospitalares, não posso queixar-me de não ter sido um indivíduo com sorte, a qual, se deixa de existir, mais ninguém me pode acudir.

Se tal acontecer, (certo é… quando, não sei?!), só quero deixar bem clara esta concepção:

Felizes daqueles que, mesmo no percurso íngreme da descida existencial, conservam, ainda que debilitada, a faculdade de cogitar. O pensamento é a única coisa que voa mais rápido do que a luz, e tem capacidade para atingir horizontes infinitos. A incontestável e irrepetível liberdade que espontaneamente foi concedida ao Ser Humano, é a de cada um poder pensar o que quiser; porém, ficando sempre refém dos seus pensamentos. Estes, benignos ou malévolos, são inapagáveis. O nosso córtex não desarrisca, não esconde nem emenda. Podem estar alojados nas prateleiras mais profundas da nossa mente, mas, quando chega a hora própria, em fracções de segundo, eles manifestam a sua presença, para o que der e vier.

E agora, para finalizar:

Antes de pensar, raciocinem no que vão pensar.

Parece laracha, não parece? Mas não é.

 

António Figueiredo e Silva

 

Coimbra, (PORTUGAL), 18 de Outubro de 2026

 

Nota:

Não cumpro com os padrões do AO90

 

Sem comentários:

Enviar um comentário

UM PENSAMENTO

  Quem não quer pensar, é fanático; quem não pode pensar, idiota; quem não ousa pensar, um medroso. (Francis Bacon)   UM PENSAMENT...