Dinheiro e
tempo são as cargas mais pesados da vida.
As pessoas
mais infelizes são aquelas que têm tanto disso,
que nem sabem
o que fazer com eles.
VELÓRIOS
ПРОБУЖДЕНИЕ
AUFBEHRUNGEN
目覚める
LỄ TANG
WAKES
जाग
VEGHE
醒來

Aflição
Enterros, mortórios, funerais,
inumações, sepultamentos, ou lá o que queiram chamar-lhes, são acontecimentos
onde se espraiam as maiores manifestações de disfarce de que eu tenho
conhecimento. É nessas circunstâncias formais ou protocolares, que, “sem disso
se aperceberem”, seres “humanos” aspergem, com vincada dissimulação, a falsidade que sempre lhes vagueou no espírito.
Não é meu
desejo afirmar, que nessas manifestações de falso apreço e compaixão, não encontrem
presentes, seres sensatos e agradecidos, que no seu interior sintam a
verdadeira ausência do retrógrado vitalismo do féretro, - antes de ele iniciar
o seu arrefecimento eterno -, cujo amor por ele ainda persiste, e os marca com
profunda e verdadeira angústia, por saberem que jamais o voltarão a contemplar,
a não ser através de fotos; das quais, algumas subsistirão por tempo imprevisto,
suspensas em qualquer em qualquer canto, sobre uma velha prateleira ou prensadas
entre as folhas de um álbum amarelecido, para serem roídas pelos peixinhos-de-prata,
ou até que a moldura, triturada pelos cupins se putrefaça, tombe e se estatele,
- à semelhança da memória, que ao mesmo tempo se vai dissipando nas nuvens do
futuro, à medida que o tempo vai passando.
Porém,
isto não invalidada que eu não possa exprimir o que me vai na alma, (ou
pressinto), sobre tão delicado assunto, apesar de saber que vai desgostar à
falsa índole de muitos marmanjos, - que não serão tão escassos como podemos
pensar.
Nas
exéquias, exceptuando os familiares mais chegados, (por vezes nem esses), o
mundo inteiro exibe-se com aparência “angustiada” e olhar pesado, como se
sentissem a perda daquele defunto “sacana”, (para alguns), que, de tão hirto e
enfriado que estava, já não reunia capacidades para lhes arrancar a máscara da falsidade.
É um
acontecimento em que não somente são derramadas lágrimas de tristeza; também
são vertidos chorincos de satisfação, trasvestidos de melancolia.
Isto é
verdade. Já foi por mim constatado. Um dia, num funeral de um familiar, até
houve um parôlo sebento, que em “lânguida” voz, me concedeu os
seus sentidos… parabéns! Ocorrência que jamais deslembrei!
Noutras
alturas, enquanto o enterro não era realizado, era “normal” várias pessoas
saírem para fora do local mortuário e deslocarem-se para o adro, conversar
sobre a vida alheia ou entabular negócios de gado.
Que
interesse ou valor, têm as coroas ou ramos de flores, se na maioria das vezes
não representam mais do que” mancheias de urtigas”?!
Esta “cena”
dos funerais, não deixa de não ser ao mesmo tempo, uma oportunidade comercial
para os vendedores de esquifes, - e supostos enterradores -, que, identicamente
com semblante “tristonho”, (mas alma jovial), sabem muito bem disfarçar os
interesses proveitosos que por detrás do seu fingido sentimento, grelam. Isto
não é impostura. É o que há muitos anos tenho vindo a verificar.
Contudo, todos os farsantes olvidam uma
realidade; a dissimulação só se estende até
ao dia em que o mesmo “cobrador,” (do defunto), lhes apareça para
ceder o bilhete de embarque, que é insubstituível.
A epilogar:
Enquanto uma figura é viva, não lhe
falta quem lhe derrice a “carne e a alma”, para ir enchendo o “bandulho”, - se
ela for de natureza enceguecida. Depois de defunta, continua a ser sustento de
muitos, - mesmo após ser sepultada.
E é deste modo que, entre finais e reinícios,
a Criação da Vida prossegue em direcção ao infinito!
António Figueiredo e Silva
Coimbra, 26 de Agosto de 2026
Nota:
Não utilizo o AO 90.
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