segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

SEM REGRAS VOCABULARES

 

 

Pequeno prólogo:

Tão só, para transmitir que não é meu propósito desprestigiar, desdenhar, machucar, obscurecer, zombar ou achincalhar, quaisquer regionalismos, gírias, ou mesmo línguas – como no caso do Mirandês -, que existem em Portugal.

Todas, mas todas, sem excepção, são merecedoras do meu mais aberto apreço.

(do autor) 

Além da sua identidade,

a língua é o espírito de um povo.

(António Figueiredo e Silva)

 

SEM REGRAS VOCABULARES

 


É munto milhor ‘screver desafogadamente, ducandar pr´ái armado im pateta, só pr’ámostrar òs oitros caté sabe macarronar duas trêtas im sabolada caligráfica.

Numintressa, nem tanho bergonha ninhuma do que possam dezer a meu respeito.

Como num sou mouco, e louco támém penso que não, - graças ao Pai do Céu -, tanho oubido tantas parboíces agomitadas cá p’ra fora, por pessoas que s’amostram como cultas, e no final das contas, cando abrem a trameleira, só sai palratório tão intulhoso, que tanho de calafetar os oubidos ou meter bendas nas bistas p’ra num cair na patetice oubir e d’inxergar tantos desparates.

Num sou pêco; sei munto bem q’estou pr’áqui árranjar uma carga de purrada, talbez munto maior du’cum pesado temporal. Mas, poucochinho ou nada m’intressa. Num’aquenta nem’arrefenta.

O que tanho p´ra dezer, aicho que debe ser dito, e ponto final.

Aqui há unzanitos passados, cando a lei da palmtória dominaba o Insino Primário, a língua portuguesa era uma obra prima, (no tempo em que, hoje, filhos de muitas récuas, dizem que era um tempo de analfabetos), caté saltaba num só dos miolos, como támém das palmas das mãos. Essa era uma das rezões porque, com a “misarábel” 4ª Classe, já se era diplomado – e às bezes cun destinção, caramba!

Atão, bejam bem: s’in bez de contracto, eu ‘screbesse contratação, já ‘stba feito ó bife - de duas palmatoadas num me safaba; sin bez de prenunciar ou ‘screber, abrisse a matraca e articulasse dezer, ou o ‘screbesse, tinha dreito a mais duas ou três palmatoadas; se em lugar de fabrico, (fabrico de qualquer coisa), ‘screbesse fabricação, mais umas berdoadas p’ró lombo.

Ofecialmente, (bocábulo hoje munto im boga), a palmatória era tida como um substrato p´rá limação (p´ra quem num cumprender, limagem), do intelecto, inda in formação.

 Naquele tempo, começába-se a ‘screber num caderno de duas linhas, p’rábituar, (num é pr’ábituação), o cérebro, aos mobimentos manuais e afinar o seu sentido d’orientação. Depois, já mais p´ró fim do Curso (Superior), Primário, habia uma matéria, (num tem nada a ber com pus das fridas), que se chamaba de Caligrafia.

Aqui é caporca trocia o rabo!

Era uma grafia munto bem urdida, e num era permetido ninhuma ‘spece de borradela ou imenda.

Foi uma era im que o insino, primaba pela perfeição, e pela nobreza d’escreber.

Naquela classe só podíamos dar um erro nas redacções. Agora, num faltam erros! E erros de palmatória.

Hoje a maioria num s’intressa. Imberadam poru “Insino Suprior”, saem de lá cum canudo p’ra ber Braga, e mal sabem ‘screber – alguns, nem palrar.

Aos mais mal-acabados, despretensiosamente quero lembrar-lhes, - para que não esqueçam; um idioma é a mais firme identificação de um povo. É a sua alma!

 

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 9/02/2026

 

Obs:

Procuro não utilizar o AO90.

 

Nota:

Esta é a minha “modesta contribuição”,

para a construção de um novo AO, (Acordo Ortográfico).

 

 

 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

“FILHOS DE BOAS FAMÍLIAS” (?)

 

Tanto à supremacia do poder,

como à grandeza patrimonial,

  o acesso aos desígnios da Criação,

estão hermeticamente cerrados.

(António Figueiredo e Silva)

 

“FILHOS DE BOAS FAMÍLIAS” (?)

 

    É pertinente questionar o que é socialmente considerada uma boa família; este assunto surgiu-me de impulso quando estava a reflectir sobre os defeitos e as virtudes da sociedade que me rodeia, que por sinal, é bem complexa.

Este, direi, capricho social, de ser “filho de boas famílias”, geralmente é atinente às estirpes endinheiradas; porque, quanto ao resto, ou restolho, esse atributo já não é habitual ser concedido – a não ser por sofisma.

Quando se trata de pessoas financeiramente débeis ou mesmo maltrapilhos, já não são “baptizados” com o estúpido jargão “filhos de boas famílias” e os seus descendentes, que no cumprimento do Pecado Original, também o não serão; não evitando apesar disso, que não possam vir a ser pessoas de peso na comunidade ou no Mundo.

No decorrer do espaço da existência que espontaneamente, por sorte ou por azar, me foi concedido, gozei de duração suficiente para observar que, à volta deste tema, (filho de boas famílias), muitos conceitos fracassados têm surgido! Ainda hoje, em pleno século XXI, essa tendência absurda prossegue na sua manifestação, não obstante o avanço do conhecimento e sua a difusão serem maior amplitude. Dá-me a impressão de que as pessoas se estupidificaram. Não consigo alcançar outra razão para justificar esse comportamento imbecilizado e sem modéstia, que unicamente se alicerça em substruções materialistas.

Já conheci tanto filho-da-mãe, que era rebento de “boas famílias”! E também já conheci bastantes famelgas, consideradas “famílias más”, de onde germinaram primorosos rebentos, que, graças à sua inteligência, à sua conduta e sua obstinação, conseguiram inverter o rumo desse “estigma”.

Após a antecedente a narrativa de “meia-tijela”, o que me apraz dizer é o seguinte: a parte material, apesar da influência colectiva que possa conter, não consegue cindir os degraus da escada em caracol do ADN.

Logo:

Independentemente dos predicados familiares, (bons ou maus), aquele que nasce talentoso, sempre o será; o que germina sob a cobertura da incompetência, mantê-la-á, até finar.

Para que a existência se manifeste, é imperativo haver um oposto.

São estes dois pilares que sustentam a Lei da Compensação Natural, que concede o princípio a tudo quanto existe. E nisto, a Criação é determinada e implacável!

Por consequência, cada um é como é, e não como querem fazer ser, independentemente da árvore genealógica que o concebeu.

 

 

António Figueiredo me Silva

Coimbra, 1/02/2026

Nota:

Não utilizo o AO90.

  

NAQUELE TEMPO!

  Honestidade sem erudição, é franzina e escusada; sabedoria sem rectidão, é indesejável e aterradora.   (António Figueiredo e Silva) ...