Quando começamos a relembrar
muito,
é predição
de que o tempo se está a esgotar.
(António
F. Silva)
LEMBRANÇAS
AFLORAM À MEMÓRIA!
Há muitos anos!
Ainda agora alimento no meu ser as memórias que a
borracha do tempo se recusa a apagar; e ali, arrumada, um canto, e talvez assaltada
pela poeira, a aplaca gráfica, que decerto não se recusa a imprimir.
Esta ilustração humorística,
encerra uma cronografia, que pela sua graça, merece ser libertada do baú do
silêncio.
Não me recordo do nome
do artista que alinhavou com precisão os perfeitos traços que lhe deram alma e
muita semelhança com a minha fronha.
Se algum dia, (que
será pouco provável), ele se deparar com este caricato desenho, e se der ao
trabalho de ler o que aqui vai manifesto, certamente que também não irá
lembra-se, - tal não era a piela que lhe toldava a mioleira! São acontecimentos,
próprios da idade, decorrentes de grupos de amizade e da petisqueira, - quando atravessei
o comportamento disparatado da juventude, a esses momentos também não me safei.
Recordo-me que o magnífico
desenhador se formou e Direito pela Universidade de Coimbra. Se exerce a
profissão ou não, não sei.
Esta distorção
irrisória da minha fronte, pelo que diz quem me conhece, dentro do burlesco, a
mim se assemelha.
O artista, que tinha
estado numa petiscada com amigos e a emborcar uns tintos de boa marca, destinados
à lavagem do seu canal de deglutição, entre o “tempero” da cavaqueira e o
trincar do pitéu, como acontece a muitos, esqueceu-se de que a descida da
quantidade do tintol, devia ter esquecido que este também subia à cabeça
e danificava a bússola, tresmalhando-lhe a orientação.
E certo é que quando o
grupo saiu, por simples casualidade olhei para a mesa onde tinham estado, e
fiquei perplexo; entre cascas de camarão, migalhas de pão e máculas de briol
espalhadas pelo toalhete de papel e havia servido de aparador, olhei para
esta figura artisticamente bem feita, rasguei o bocado do toalhete e fiz a sua
integral reprodução que mandei fazer em metal, e guardei até aos dias de hoje,
como uma relíquia do antigo café “O PAINEL”, outrora sito na Rua Lourenço
Almeida Azevêdo, 80, em Coimbra.
Não tinha assinatura,
nem data. É a razão porque desconheço o nome do talentoso criador.
Pode ser que ele, se
vir esta caricatura se recorde, e possa mencionar o seu nome. Este rabisco
vale mais do que um quadro de Salvador Dali.
Actualmente, com quase
oitenta e dois anos no pêlo, quero expressar o meu reconhecimento ao
desconhecido, (até agora), Criador.
António Figueiredo e
Silva
Coimbra, 1 de Maio, de
2026
Nota:
Não uso o aborto do
AO90.
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