"VOAR" A SONHAR, E VOAR!
Então, sempre que as
oportunidades se me deparavam, porque o estado de guerra em Moçambique assim o impunha
ou por satisfação própria, com ou sem riscos, – nem neles pensava -, eu lá ia. Apoiado
pela cabeceira da mocidade, observava de cima para baixo toda a vastidão panorâmica
e a extensão incomensurável do horizonte, com imensa admiração e indescritível
deslumbramento, degustando com satisfação, a sonância cava dos filetes de ar
que a envergadura e hélice da aeronave, impiedosamente cortavam, enquanto em
mim, uma descontracção ultraterrestre fazia sentir a sua presença! Até o perigo
que por baixo de mim por detrás de uma mira, atentamente me vigiava, era
esquecido.
Quando, porém, acontecia
que durante o voo surgia propositada ou acidentalmente, um “G” Negativo, (Gravidade
Negativa), eu estremecia e “acordava” para a realidade; sentia que ia a cair. Uma
sensação de fragilidade, semelhante à dos sonhos que tivera quando ainda era criança,
apossava-se de mim. Não era pânico, mas uma sensação arrepiante, que não consigo
descrever. Depois, como o “hábito faz o monge”, também me habituei àquelas
transmutações.
Estou p’ráqui alinhavar
estas palavras, porque fazem parte do meu inventário de recordações e ao mesmo tempo,
porque até hoje nunca cheguei a compreender como é que, sem nunca ter voado, quando
criança, eu, em muitas fantasias durante o sono, tinha aquela sensação do “G”
negativo. Cair no vazio! Uma impressão aterradora que me fazia estremecer e acordar
apreensivo.
Por todas as narrativas
que até hoje tenho ouvido sobre o assunto, concluí que esta é uma situação normal
que ocorre com todos os seres humanos, quando na sua meninice e crescimento.
Foi na Força Aérea Portuguesa,
da qual orgulhosamente fiz parte, em voos que realizei, que obtive várias vezes
essa mesma sensação.
Pergunto: como é que o
meu corpo já dominava aquele acontecimento, se eu nunca havia voado?!
Um G Negativo, ocorre,
quando a velocidade de um corpo em queda livre, ultrapassa a rapidez de
aceleração imposta pela gravidade, (neste caso a da terra), que é de 8,9 m/s.
Actualmente sabe-se, que
quando o nosso corpo é submetido a uma queda livre e esta supera essa
velocidade da gravidade, desperta uma desorientação repentina, que dá origem a que
o cérebro faça actuar o Sistema Nervoso Simpático, por interpretar esta acção
como uma ameaça física ao nosso corpo, daí decorrendo uma libertação de
adrenalina que nos faz arrepiar.
Até aqui, entendo que
está tudo certo; o que não compreendo é como que nós, ainda em crescimento, sem
nunca termos voado, o nosso corpo já experimentava essa sensação.
Realmente, existem acontecimentos
que se situam muito para além do nosso conhecimento!
António Figueiredo e
Silva
Coimbra, 05/03/2026
Nota:
Não utilizo o AO90
