quinta-feira, 5 de março de 2026

"VOAR" A SONHAR, E VOAR!

 

"VOAR" A SONHAR, E VOAR!

 


    “Caminhar” sobre as nuvens! O prazer extasiante que muitas vezes senti, quando, na minha juventude, suportado pelas asas avelhentadas de obsoletas aeronaves, ia a meditar que era o senhor do Mundo! Era realmente extasiante!

Então, sempre que as oportunidades se me deparavam, porque o estado de guerra em Moçambique assim o impunha ou por satisfação própria, com ou sem riscos, – nem neles pensava -, eu lá ia. Apoiado pela cabeceira da mocidade, observava de cima para baixo toda a vastidão panorâmica e a extensão incomensurável do horizonte, com imensa admiração e indescritível deslumbramento, degustando com satisfação, a sonância cava dos filetes de ar que a envergadura e hélice da aeronave, impiedosamente cortavam, enquanto em mim, uma descontracção ultraterrestre fazia sentir a sua presença! Até o perigo que por baixo de mim por detrás de uma mira, atentamente me vigiava, era esquecido.

Quando, porém, acontecia que durante o voo surgia propositada ou acidentalmente, um “G” Negativo, (Gravidade Negativa), eu estremecia e “acordava” para a realidade; sentia que ia a cair. Uma sensação de fragilidade, semelhante à dos sonhos que tivera quando ainda era criança, apossava-se de mim. Não era pânico, mas uma sensação arrepiante, que não consigo descrever. Depois, como o “hábito faz o monge”, também me habituei àquelas transmutações.

Estou p’ráqui alinhavar estas palavras, porque fazem parte do meu inventário de recordações e ao mesmo tempo, porque até hoje nunca cheguei a compreender como é que, sem nunca ter voado, quando criança, eu, em muitas fantasias durante o sono, tinha aquela sensação do “G” negativo. Cair no vazio! Uma impressão aterradora que me fazia estremecer e acordar apreensivo.

Por todas as narrativas que até hoje tenho ouvido sobre o assunto, concluí que esta é uma situação normal que ocorre com todos os seres humanos, quando na sua meninice e crescimento.

Foi na Força Aérea Portuguesa, da qual orgulhosamente fiz parte, em voos que realizei, que obtive várias vezes essa mesma sensação.

Pergunto: como é que o meu corpo já dominava aquele acontecimento, se eu nunca havia voado?!   

Um G Negativo, ocorre, quando a velocidade de um corpo em queda livre, ultrapassa a rapidez de aceleração imposta pela gravidade, (neste caso a da terra), que é de 8,9 m/s.

Actualmente sabe-se, que quando o nosso corpo é submetido a uma queda livre e esta supera essa velocidade da gravidade, desperta uma desorientação repentina, que dá origem a que o cérebro faça actuar o Sistema Nervoso Simpático, por interpretar esta acção como uma ameaça física ao nosso corpo, daí decorrendo uma libertação de adrenalina que nos faz arrepiar.

Até aqui, entendo que está tudo certo; o que não compreendo é como que nós, ainda em crescimento, sem nunca termos voado, o nosso corpo já experimentava essa sensação.

Realmente, existem acontecimentos que se situam muito para além do nosso conhecimento!

  

António Figueiredo e Silva

Coimbra, 05/03/2026

 

Nota:

Não utilizo o AO90

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