sexta-feira, 9 de março de 2018

O PRECONCEITO (II)


Ainda há dias o meu filho me acusou de preconceito, e com razão. Deu a notícia de que 2 enfermeiros e um polícia tinham sido agredidos no H S João por 4 acompanhantes de 1 doente. E saiu-me: são ciganos de certeza. E levei um sermão. A verdade é que veio a saber-se que eram. A minha associação foi por experiência (infelizmente muita) das urgências dos hospitais.  Ele vai gostar deste texto, tenho a certeza. Só não sei se ele será capaz de admitir que também o faz.
(De um comentário; ipsis verbis)

O PRECONCEITO (II)


Como se pode observar, um preconceito, quando exteriorizado, fez germinar outro que se encontrava oculto em sepulcral latência no inconsciente, e por razões endógenas – neste caso: «são ciganos de certeza» - assomou à flor da palavra, montado no burrico da apreciação dum preconceito.
É hipotético que a observação em causa, nem houvesse sido pronunciada com sentimento desapreço rácico ou desprestigiante, mas, quiçá por haver tidos como factos inegáveis algumas repetições de “barbaridades” análogas, praticadas por indivíduos dessa comunidade, que, posso afirmar, também possui pessoas honestas, respeitadoras e amigas do seu amigo.
Esta “resenha”, se assim se pode chamar, faz-nos chegar à conclusão de que o mundo Humano rodopia em torno do preconceito. É certo que as ideias com fundamentos na incerteza, não flutuam à superfície, mas estão bem grudadas na essência do próprio ser, organizadas nos recantos da genética, onde a ciência do Homem ainda não é capaz de chegar. É um dado cuja existência é reconhecidamente aceite, porém que muitos seres, de “puritana condescendência”, se “recusam” em concordar.
Se fazemos uma advertência a alguém por via de um preconceito, é porque possuímos outro para contrapor o primeiro. Isto é, perante a minha maneiro de pensar – que até pode estar errada - o criticado é que está imbuído no erro e não nós. É nesta duplicidade que consiste a realidade do preconceito que, por muito que o deseje, jamais o ser Humano se conseguirá libertar, e continuará eternamente, sob sujeição da inconsciência, “o rôto a julgar o esfarrapado”; não porque não lhe assista a razão no instante, mas porque não pausou para olhar o seu interior; quando não, não ajuizaria.
O preconceito é um sentimento nocivo, por alguns disfarçado sob a penumbra do manto negro do fingimento. Hei o preconceito como a alma negra do conceito, porque permite presumir ideias sem averiguar factos, e arguir sem fundamentos.
É essa alma negra que sustenta a afirmação de ouvirmos os “puritanos” declararem somos todos iguais.  E somos. Porém, só nos componentes estructurais e na parte anímica - que não está eximida do preconceito; de resto não somos todos iguais nas restantes características que nos complementam e fazem de cada um de nós um ser diferente. Como tal, porque não dizê-lo abertamente?
O existirmos, não é só pelo facto de possuirmos a capacidade de raciocinar, pois tem de haver uma outra ponte de relação que comprove essa existência. Se fossemos todos iguais com certeza que nem dávamos conta da nossa própria entidade, porque careceríamos de medidas de aferição que na realidade não existiriam.
Concluindo: ainda hoje, depois do avanço – relativo - da ciência, não é só pelo pensar que podemos afirmar a nossa entidade, pois tem de haver outros pontos de analogia que o comprovem; a confirmar esta minha linha de pensamento, que até pode cair no erro, o ser humano ainda não sabe quem é, de onde veio e qual o seu papel no universo cosmológico em que está inserido.
Uma coisa é certa: existimos casados com preconceito que, apesar de ser uma característica Humana, não é nada celestial.
Entenda quem souber, e proteste quem quiser.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 08/03/2018
Obs: Ainda não sou a favor
 do novo acordo ortográfico.



terça-feira, 6 de março de 2018

O PRECONCEITO


0 preconceito é uma opinião que
deixou de ser submetida à razão.
(Voltaire)


O PRECONCEITO

Conceitos mal arquitectados na vacuidade “opinativa” rebelde, geram preconceitos.
Toda a atitude decorrente da presunção vazia de conteúdo é nociva à sociedade, não obstando que, apesar disso, esta seja uma desvirtude que mina todo o ser Humano. Sem excepções – repito: sem exclusões.
Aquele que disser que não tem preconceitos, mente. Pode ter autodomínio (manha) suficiente para não o evidenciar, todavia, quando as condições se propiciam à sua soltura, não se fazem rogar. Isto é uma afirmação e não um pensamento linear.
Sei que o indivíduo, ao sujeitar-se religiosamente a juízos de valor divagados e expô-los abertamente sem qualquer sensatez, são a resultante de uma agnosia marcada, conquanto que também saiba que essa mesma ignorância foi criada no princípio da existência Humana.
A meu ver, esta enfermidade não se manifesta somente em não aceitar as ideias dos outros ou os seus sentimentos, mas sim em promover uma auto-demarcação, ainda que estúpida, de uma posição que o imbecil considera de cocuruto, onde ele se sente como primeira pessoa, digna e convencida de que toda a respeitabilidade e mesuras se vão vergar à sua parvoíce. Esta é a genuína falácia de uma realidade. Falácia, porque isso não sucede; realidade porque a pobreza de espírito faz assim faz pensar.
E não é imperativo o recurso à agressividade raivosa, como muitas pessoas pensam e argumentam, para se demonstrar a existência de tendências pré-concebidas no vazio do entendimento. As posturas e a linguagem corporal são o suficiente de falar mais alto do que o mais “belo” e extenso sermão. Um gesto, um olhar de cima da burra ou de esguelha, um empinar de nariz, um assobiar para o lado, etc. são sinais que pertencem ao cartilha do preconceito. As chefias, os mandões, os parvos, os prepotentes, e até mesmo aqueles que o não são, mas que do mesmo monte (humano) fazem parte - se não mais, entre si – não são imparciais. O preconceito ataca e corrói o ser Humano como a ferrugem agride e lentamente mastiga o ferro até o consumir.
Não sinto que o preconceito seja uma germinação consequente das mentes mais intolerantes, mas reconheço, contudo, que esta singularidade não devia fazer parte da construção do ser Humano. Mas faz, e ponto final.
As ideias pré-concebidas no espaço, com tijolos de aparente raciocínio, enganam quem as gera e escravizam aqueles que a elas se submetem ou dão crédito, por serem obrigadas a isso, por força das circunstâncias – a coacção anda sempre de mãos dadas com a imposição; são duas armas forjadas na pira do conceito desarmado.
É do juízo pré-concebido (mal procriado) que vêm todas, mas todas as manias separatistas, ou melhor, discriminatórias, que impunemente vagueiam na comunidade global, empeçonhando-a de tudo o que de pior existe. Ele impede que um ser seja julgado em função da sua capacidade intelectiva, porque no pré-julgamento, a firmeza não reside na crítica, uma vez que esta tem que ter por base o conhecimento, mas o errado juízo de valor nada mais faz do que escarafunchar víctimas, ao agigantar-lhes as “incorrecções”, físicas ou morais, as tendências ou pulsões, as crenças, a sua genética etc., castrando-lhes em grande parte a sua ascensão ao universo da igualdade a que as mesmas indubitavelmente deviam e devem ter direito.
Se a existência Diabólica é tida como um facto - místico mas é - como o é o da existência Divina, é o mesmo que dizer que o Bem e o Mal sempre coexistiram desde a “origem”; logo, uma das forças deixou-se dominar pela outra e o produto de “olaria” – entenda-se Criação - saiu com um defeito que somente pode ter sido soprado pela força Diabólica; o preconceito.
Posso afirmar, sem quaisquer obscuridades duvidosas, que o preconceito é o factor principal da instabilidade mundial; é a força motriz da ambição; é o gerador de quezílias e conflitos que mais tarde ou mais cedo, acabarão por dizimar a vida neste pontinho minúsculo do universo, onde todos poderíamos viver na paz dos deuses; naquele fantasiado e seráfico empíreo, onde, por caminhos diferentes, todas as crenças vão dessedentar-se.
Assim o entendo, assim o digo.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 06/02/2018

Obs: Ainda não sou a favor
 do novo acordo ortográfico.