sexta-feira, 10 de junho de 2016

QUANDO EU MORRER...



 QUANDO EU MORRER…

Dispenso perfeitamente a romaria ao meu mortório; primeiro, porque eu não fui santo, segundo, porque é realmente uma seca do caraças, e ainda por outra razão: com toda a certeza que eu também não irei ao vosso.
Escusam de ir “visitar-me” com um semblante carregado, para dizer-me o último adeus, quando eu já nada vos posso oferecer a não ser um apático silêncio estampado numa fisionomia macilenta, que podeis contemplar com algum pesar e reticente apreensão, imaginando com um arrepio na espinha, o que mais tarde ou mais cedo vos espera – oxalá que seja tarde. Desejo que seja o mais tarde possível, mas não pensem que é por me sentir arrependido de ter morrido, mas apenas porque me tornarei invejoso e desejarei o bem só para mim.
Porém, se a vontade aferroar o vosso ego e aparecerdes, gostaria de sentir à minha volta os vossos rostos a transbordar de cintilante e contagiosa alegria e não de carpimento fingido onde a arte teatral - nalgumas pessoas - é persistente em manifestar-se; não irei gostar da pronúncia ritualizada e cínica dos pareceres corriqueiros, “coitado que até era bom homem“! Não porque não houvesse procurado sê-lo, mas porque certamente muitas vezes não o foi, à vista talvez errada, de muitos - consequência da têmpera com que a Natureza me dotou; como a quentura do sangue deixou de correr nas minhas artérias, “estava um bocado amarelo”; ou ainda - após setenta ou oitenta anos de vivência – num falso e escusado grunhido molhado de secreção salivar, “ainda era muito novo p’ra ter batido a caçolêta”!!!
Deixem de lastimar o bicho, porra!
De qualquer forma, se tivestes algo que pensastes ser benéfico para ofertar-me, tivesse-lo decidido enquanto eu me encontrava lado cá, quando eu disso mais tive carência; depois já não sentirei carência de nada; estarei bem, de boa saúde, e a usufruir de uma paz em toda a sua plenitude.
Nessa altura, se olhardes para mim, podeis atestar que até nem vou com cara de muito chateado, apesar de ter sido compelido a entrar no ciclo da renovação cósmica. É a lei da transmutação e a entrada no universo da igualdade absoluta. Tão absoluta, que até os magistrados mais corruptos e mais insensatos, que por enquanto, fazem parte do nosso mundo, sentarão o cú da sua inconsciência no duro e incómodo banco dos réus, onde serão julgados sem toga.
Lá não haverá galões que me façam vergar sobre o perigo de poder vir a sofrer espondilose psicológica; não existem políticos interesseiros, gatunos e vigaristas que sofregamente se alimentem da minha sudação e do meu sangue; não existem medalhas para distribuir a traidores, nem louvores para oportunistas, nem perdão para ladrões; a existência de chulos e filhos-da-puta é nulo.
Estou crente de que poderei cavalgar ou voar por toda a eternidade, sem esbarrar com nenhum cabrão daqueles que, neste mundo, de uma maneira ou de outra, me tentaram infernizar a vida; tenha ele vindo das fraldas da serra da Estrela ou das agrestes planícies alentejanas.
Toda a pompa, todo o orgulho, toda a luxúria, toda a riqueza e toda a vaidade, ficarão do lado de cá para alimento dos tolos, como eu se calhar terei sido em algum dia, não sei!?
Sem qualquer crítica aos “consolos” de cada um, sou avesso aos campos-santos; gostaria que as minhas cinzas voassem ao vento que, por não poder ser enxergado, sempre marcarão por breves momentos a sua presença, com uma dança suave de rodopiantes turbilhões cinzentos que em pouco tempo se esfumarão a caminho da liberdade absoluta que eu durante a vida sempre sonhei, mas nunca tive.
Ah, mais um aparte: luto!? Que fantochada é essa? A carga do peso do sentimento de falta, não se reflecte no cromatismo, mas no íntimo de cada ser humano! O resto é outra palhaçada, com a qual não estou de acordo; mas come quem quer.
Dispenso bem aquelas onerosas coroas de flores híbridas e sem fragrância - que valem menos do que um selvagem pampilho ou uma áspera e bravia tourega - à sombra das quais muitos sanguessugam comodamente encostados ao peso da afecção do sincero pesar de uns, ou do “primoroso” fingimento de outros. Círios? P’ra quê? Eu não precisarei de luz mortiça, porque O Criador iluminará o meu caminho até à Sua dimensão, onde eu, por toda a eternidade esperarei por vós com infindável serenidade. Não tenhais receio por eu me apresentar de olhos fechados, como que em onírica meditação; acreditem que não será por desconsideração que tenho por vós, mas porque a escura luminosidade do mundo onde ides continuar a vegetar e selvaticamente a guerrear entre vós numa renhida peleja até ao último ôlho, movidos pelos remos da ambição, ofusca-me o olhar; além, naquela escuridão aparente para onde me hei-de dirigir, também há luz; uma luz suave, ténue, mas que convida a uma nova vida de paz e à harmonia. Nela embarcarei descansado e não invejarei o infortúnio que ardilosamente e sem dardes por isso, cá fica a corroer a vossa sorte.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 07/06/2016
Ou:
www.antoniofigueiredo.pt.vu






segunda-feira, 6 de junho de 2016

ACOOORDEM!!!

Na vanglória, está tipografada a libertação
apócrifa de uma personalidade deformada
por acentuado recalcamento psicológico.
(A.Figueiredo)


ACOOORDEM!!!

Faço questão em divulgar o lugar caricato que escolhi se tratar de um assunto que se assemelha muito a uma caldeirada de considerandos agrupados pelas mais diversas situações, que vão desde as mais tristes que fazem ferver a nossa sensibilidade no caldeirão da mágoa, às mais ridículas que nos deixam boquiabertos, passando outras, pelas vielas da parvoíce - esta é uma delas- que nos deixam irritados; como tal, resolvi escrever sobre o assunto em causa, com o meu traseiro comodamente sentado na latrina, um lugar de meditação, onde o caliça que sai por baixo, também tem o dom de aliviar a pressão no interior da caixa craniana, permitindo deste modo que o pensamento flua mais livremente, levando a que a análise seja concluída com mais rapidez e, penso que, mais acertada.
É… Resolvi tagarelar não sobre o facebook em si, que nos oferece vantagens incalculáveis, na nossa intercomunicação à volta do mundo, assim delas saibamos usufruir, não excluindo também as suas desvantagens que muitos sabem destrinçar, mas outros, coitadinhos, expõem-se na totalidade para que todo o mundo aprecie quão deprimente é o seu estado de alma; e fazem-no com uma religiosidade tão doentia que dão a conhecer todo o seu universo interior ao grande público, por escarrapacharem nas páginas internáuticas, quase tudo sobre a sua vida, incluindo, com devotada ignorância, assuntos e até cenas da sua vida privada; desde as suas mágoas psíquicas, até as suas dores de cabeça ou dores de corno; das obstipações intestinais à fraqueza do seu carácter; das desventuras amorosas à conquista de um amor platónico que se pode tornar efémero; comentam até, sobre os sapatos de salto alto que lhes apertam os cascos e lhe provocam dores no calo teimoso que dorme acordado no dedo mindinho de uma das patas. Recorrem todos os artifícios, para atestarem a sua existência, que para eles deve ser dúbia; contudo, sem disso terem a percepção, executam-no de uma forma risível, sórdida ou ingénua, da qual muitos - como eu - se aproveitam para tecer duras críticas a essas maneiras de estar, no sentido de os arrancar do estado letárgico em que se encontram envolvidos, numa tentativa se calhar frustrada e provavelmente também criticável, de chamá-los à realidade.
Acordem!!!
A sociedade real é um mundo à parte e assaz diferente daquilo que muitos, sem pensarem ou sem recato algum, ilusoriamente descrevem. O que interessa ao Mundo saber se aquele ou aqueloutro comeu bife ao almoço no restaurante tal, ou se foi passar um dia praia a comer areia com a família ou com os amigos?! Que importância tem para a sociedade, saber da diversidade das novas relações amorosas que cinematicamente se vão passando entre as pessoas?
Penso que estas coisas nada dizem à sociedade, perante os parâmetros culturais em que actualmente vivemos. Apenas servem como sabão noticioso, empregue na lavagem de “roupa suja” onde é maior a nódoa que fica do que aquela que sai.
As formas de leviandade de que muitos impensadamente utilizam para a exposição de sentimentos de foro privado nas redes sociais, não só afectam a imagem de quem os expõe, como também derramam desagrado a todos os que a eles estão ligados afectivamente. Até aqui penso não haver dúvidas!?   
Se analisarmos bem tudo o que é cuspido para as páginas da internet sobre relações intersociais, tudo nos é apresentado como um mar de rosas; somente postam o que têm e “melhor” nas ténues frinchas da sua infelicidade, numa tentativa de mostrarem o que na realidade não sentem, não são e não pensam, recorrendo a fúteis argumentos e às mais diversas poses fotográficas com que premeiam a ridicularização da sua imagem com mostras de carantonhas carnavalescas, assumindo com acentuada ignorância o assassinato deliberado da beleza com que a Natureza os dotou. Infelizes!!!
Por detrás de toda esta fraqueza de espírito, o que existe na realidade, é uma parte negra que os afecta e que os impele à grandeza e felicidade fingidas, com o objectivo único de subirem ao podium social como figuras de “grande relevo”, enquanto, sem darem conta, a sua frágil personalidade se desmorona e é arrastada na correnteza de um auto-conhecimento defeituoso falsamente assente em alicerces onde a firmeza se esmigalha.
Acooordem!!!

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 05/06/201
Obs: os “erros” aqui expostos são-no,
porque não estou de acordo com o
Novo (Des) Acordo Ortográfico.
Ou:                                                               
www.antoniofigeiredo.pt.vu   






terça-feira, 31 de maio de 2016

AS "FRAGAS" TAMBÉM FALAM





AS “FRAGAS” TAMBÉM FALAM

Desabafos de José Cid:

 “Costumo dizer que devíamos construir uma muralha
da China em Trás-os-Montes, para não deixar passar
alguma música que vem de lá”(…).
“Essas pessoas do Portugal profundo já deveriam
ter evoluído”.
(…) Tenho discussões com pessoas que nunca
viram o mar(…)
 Pessoas assim, medonhas, feias, desdentadas…”


Q
uando as articulações neuronais – se existem!? - não funcionam convenientemente e a nossa autoestima é excessiva em relação à modéstia, acontece saírem composturas mal lavradas, que colocam em causa a inteligência de quem as profere e irritam as consciências serenas, virtude esta, naturalmente concedida às pessoas mais sensatas.
E vem este marmelo com cara de búzio a julgar-se o dono da perfeição, só porque através das suas manápulas de cabouqueiro dá umas arrochadas no padecente teclado do piano, arengar juízos caricatos sobre o povo transmontano!?
É ridículo, não é? Aliás, ambas as coisas o são; o que ele disse, e que ele próprio é; todavia não saberá.
Quis armar-se em sirôlho engraçado, e realmente, arrebalou na intelectualidade quiçá depauperada que deve possuir, e o que saiu foi esfoira.
Agora, porque não foi construída a muralha da China em Trás-os-Montes, certamente que a música vai ser diferente no futuro que se avizinha, em Alfândega da Fé. Às tantas, até as campanas vão tocar a rebate.
Os transmontanos, pessoas francas e hospitaleiras, com tradições das quais se orgulham e fazem questão de manter vivas, têm razões para se sentirem indispostos. 
Ou muito me engano um vai haver muito bruído, principalmente por aqueles que já apresentam profundas angúrrias com que a vetustez os premiou.
Agora arrebunha-te “ZÉ”!

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 30/05/2016

Obs.:
Para quem não conhece o vasto léxico transmontano:
Sirôlho – cagalhão
Arrebalou – escorregou (mirandês)
Esfoira – caganeira, diarreia (transmontanismo)
Campanas – sinos (mirandês)
Bruído – barulho, ruído (mirandês)
Angúrrias – rugas (mirandês)
Arrebunhar – arranhar, coçar (transmontanismo)

Ou: