segunda-feira, 16 de maio de 2016

O ASSOBIO

Escrita há nove anos; quer parecer-me
que ainda hoje o sangue circula nas
minhas veias à mesma velocidade de então.

O ASSOBIO


 É uma propriedade que o ser humano adquiriu, cuja história se perde na imensidão dos tempos. Penso que o assobio é tão velho como a formação do universo, porque “no princípio só existia o Verbo”! E a palavra, em toda a sua abrangência é uma forma de som donde emanam todos os outros, audíveis e não audíveis para toda a criatura vivente.
 O assobio é a orquestra privada de quase toda a gente e principalmente dos mais desfavorecidos pela tecnologia. A particularidade de assobiar teve grande expansão antes de ter sido inventado o gramofone e porque não se pagava licença – agora também não, mas vamos ver até quando.
O assobio tem diversos patamares de interpretação que variam segundo o seu comprimento de onda e tempo de actuação. O tom oscila em função do local, do estado da alma, da hora, da intercorrência climática e daquilo que se pretende insinuar, como: ordenar, gozar, enaltecer ou até mesmo provocar irritação.
Para isso existem vários tipos de assobio: assobio de chamamento, de advertência, malicioso, de delicadeza, de apreço e lisonja, de comando, gozador, de admiração, de experiência, ouvindo o eco e certificar-se da existência o efeito Doppler, (não recomendado para moucos), para cortar a monotonia ou ajudar a resolver uma análise quando o pensamento está a discernir; até serve como terapia para provocar sono, aliviar a tensão espiritual ou dispersar a melancolia. Haveria muito mais a dissertar sobre as propriedades acústicas provocadas pelas vibrações do ar, mas não foi esta a intenção que me trouxe até aqui ortografando esta divagação sobre o silvo ou assobio, como melhor queiram entender.
Mais ou menos todos nós gostamos de assobiar e assim nos vamos mantendo se não se lembrarem nos cortar o pio. Não me pasmo nada se o fizerem, pois na decadência em que nos encontramos, tudo serve de motivo para arranjar dinheiro com o fim reabilitar a economia (dos outros), há trinta e tal anos atrás bem recheada por sinal, quando isto era um Portugal “desgovernado” – governado está agora! - sob a égide de um “fascista”, que quando compulsivamente abandonou este mundo, deixou também uma conta bancária particular cheia de cotão, e este, apenas recheado de patriotismo, única carga argêntea que não é palpável, porém pode ser constatável.
Ainda não acabei, mas já sinto que muitos, ao lerem o que acima acabei de escriturar, me imputam sintomas de oligofrenia profunda. Se assim for, é natural que estejam certos; porém, se assim não for também estarão dentro da razão, porque eu continuarei a “assobiar” da mesma maneira e na habitual entoação que tenho usado até agora.
Teimei em passar ao papel este pensamento, à primeira vista obtuso, mas, depois de assistir à germinação de tantas ideias, muitas sob forma legalizada, para nos arrancar à força direitos adquiridos e reduzir direitos a adquirir, que não me espanto nada que um dia não possa sair uma lei que nos imponha regras para podermos assobiar.
Basta que alguém se lembre e a comunicação social dê a devida ênfase, é muito natural, por exemplo, que amanhã possa brutar (mesmo brutar) uma norma que vise aplicar sanções pecuniárias àqueles que assobiem em público, sem possuírem o curso de um conservatório de música.
É muito natural! Então se já se pode pagar imposto por ajudar em forma monetária um filho, ou outra pessoa qualquer, porque não pagar uma coima por assobiar, sem estar credenciado para isso? Se quase todos os portugueses, mal ou bem sabem assobiar, seria um bom motivo a explorar pois renderia uma boa fatia para engrossar os cofres do Estado (?).
Pelo sim e pelo não, sugiro a todos os portugueses que sabem assobiar, e os que não sabem que comprem um assobio, e, juntos, assobiem em uníssono e façam um chinfrim dos diabos até rebentar os bofes e os beiços, pois um dia podem ter que calar a assobiadeira.
Tomem atenção ao que vos diz este tolo! Aproveitem a assobiar agora, enquanto é tempo.


António Figueiredo e Silva
Coimbra, 05/06/2007
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sábado, 14 de maio de 2016

O PALITO

O PALITO

É um artefacto que se perde na obscuridade temporal. Há muitos anos eram concebidos de qualquer tipo de madeira, osso espinha ou arame, sem qualquer ajuda cortante, bastando para tal ripar uma lasquinha de qualquer bocado de pau, ou ensaiar todas as práticas até chegar à espinha do bacalhau que sobrou presa aos queixos. Penso que, muito antes da invenção da roda, o palito e o consequente empalitamento já haviam feito a sua aparição; pelo menos desde que o homem começou a ter dentes e sentir a necessidade de lhes remover o insuportável lodo; a segunda fase foi quando começou a ter dois dedos de testa e a assaltar o pomar dos vizinhos para comer a maçã preferida.
  É um consumível tão banal, que não passa pela cabeça de ninguém atribuir-lhe o devido valor, a não ser quando sentem necessidade de remover os restos do bife bem massacrados entre as frinchas da cremalheira cansadas de rilhar. Existem várias qualidades de palitos, contudo, os produzidos de choupo são considerados os melhores.
Várias vezes tenho observado bestuntos que não recorrem a este bastonete de limpeza, preferindo em sabuja alternativa escolher unha suja do dedo mindinho direito - quando não são canhôtos, como é suposto – e, em renhida greve contra o palito, arreganham a beiça com o dedo referido em parceria com mais dois ou três, aparentando estarem limpar a goela, ou a forçarem a entrada da comida para o bucho, dando a ideia de que esta já chegara ao gargalo. Apresentam uma fisionomia que de tão ridícula, dá vontade de rir.
O certo é que este aparelho de “desentupimento” dentário possui as funções mais inimagináveis que se possa pensar; se tivesse que escrever tudo sobre o palito, daria um bom livro.
Ele serve para chatear o vizinho que fez muito banzé durante uma noite de orgia, introduzindo-lhe no botão da campainha um palito para que ele, em ferrado sono diurno, seja obrigado a levantar-se ainda meio ressacado, para desligar o botão e acabar com o incomodativo chinfrim que lhe atribula o sono.
Aqui há uns anos atrás, pelo menos em Coimbra, quando a praxe não era a bandalheira que se vê hoje, ele servia para os caloiros medirem o comprimento dos passeios e outras coisas que se prestassem a medidas lineares - era conhecido por “palito métrico”.
O palito tem também funções paliativas; ainda que indevidamente há quem dele se sirva para caboucar e remover o cerume dos ouvidos e coçá-los; arengam que dá um gozo copular com os canais auditivos; o “orgasmo” sentido maila a ignorância, fá-los entrar em êxtase e acabam por rebentar a membrana timpânica ficando para sempre moucos daquele lado, porém, o prazer que lhes deu, se calhar compensou o arrependimento. Outros, mais atinados para a engenhoca da poupança consequente das crises, que são duas, uma da época actual e outra instalada na sua nitreira cabeçal, também fazem deste pequeno utensílio uma ferramenta muito-usos; depois de desgrudarem o sarro dos dentes e desentulharem a cera dos ouvidos, guardam-no religiosamente no bolso da camisa ou conservam-no num meio seboso entre as orelhas e a abóbora, até que que abeire o próximo enceramento dentário. E o palito dura, dura e dura tanto, que chega a ter um colorido marron.
 Se tivermos ao nosso dispor um palito, com ele podemos picar as alheiras, os bolos de bacalhau, as azeitonas, os rolinhos fritos de bacon com ananás, as rodelas de chouriço ou os bocados de presunto etc., quando estamos com afincado prazer a dar cabo da saúde numa petiscada.
Há, acontece também que existe quem se sirva deles para enfeitar a testa em dias de carnaval ou para toda a vida; a esta liturgia já não se diz usar o palito, mas por maliciosa comparação, ser empalitado.
Além de imensos serviços prestados pelo palito, um existe que é de suma importância por ser usado como uma medida de foro psicológico que é a mensuração do medo, do  pavor; “ estava com tanto medo, que não lhe cabia um palito no cú”.
Bem, como tenho vindo quase sempre a ortografar sobre coisas sérias, desta vez dediquei este meu bocadinho de tempo a temperar com um pouco do sal da alegria, as angústias da vida, recorrendo a este articulado em homenagem ao palito e a todos os que desta pequenina coisinha se servem para o desentulho da dentição, remoção de moncos, alívio da comichão auditiva, e outras coceiras onde ele possa chegar; é também  uma homenagem a todos os empalitados.
Então… vivas ao palito!!!

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 12/06/2016
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quinta-feira, 12 de maio de 2016

OS QUE SAÍRAM...

Não é intenção minha ao escrever esta narrativa, subverter ou ferir o admirável valor dos emigrantes portugueses, mas sim reportar o que para muitos foi uma história de vida, cheia de sacrifícios, aventuras e desaires, perante os quais muitos capitularam face às evidências que não conseguiram ultrapassar, não obstando contudo, que eu não os considere com o mesmo apreço, respeito e admiração, e lhes atribua o devido valor de corajosos heróis, a quem a sorte não protegeu ou a flacidez natural lhes minou a força de vontade.
                                                                        (A.Figueiredo)


  OS QUE SAÍRAM…
…OS QUE FICARAM E OS QUE REVIERAM


Esta história da emigração tem muito que se lhe diga. Na mente dos que outrora zarparam, levavam um objectivo profundamente determinado, que normalmente não consistia em melhorar a sua situação de vida, contudo a ilusão de enriquecer com facilidade; isto acontece com menos frequência nos dias de hoje, porque a maioria já tem os olhos mais abertos e está mais bem informada, não excluindo como é natural, algumas excepções. Bons, medianos ou mais ou menos, já são depositários de alguma especialidade que lhes permite um melhor nível de vida nas terras adoptivas que propuseram trilhar.
É certo que sacrificam os seus valores afectivos e outros, por um horizonte que, apesar de muitas vezes lhes parecer ter sido devidamente calculado, quando imergem dentro de outro meio onde cultura, a língua, as regras, as exigências e o ambiente social são diferentes, é humano que possam sentir sempre calafrios que durante algum tempo lhes fazem, não digo gelar, mas esfriar o ânimo por longos períodos, até que a adaptação se pronuncie, sem nunca ser absoluta.
Actualmente as condições são outras e graças ao avanço da tecnologia o Mundo encolheu; hoje almoça-se aqui e passadas umas horas merenda-se ou janta-se acolá, a uns “insignificantes” milhares de quilómetros de distância. Matar a imortal saudade tornou-se fácil e a preços acessíveis.
E aqui há sessenta, setenta, oitenta anos? O emigrar era uma coisa do outro mundo, se bem que, situado neste. Para atravessar o Cabo da Boa Esperança ou outro cabo qualquer, o mais penoso era o cabo dos trabalhos.
Por algumas “pinturas” corriqueiras muitos se enganaram; ao notarem que outros – poucos - apareciam lá pelas suas terras, enfarpelados com uma fatiota branca ou azul-céu e panamá rasca a cobrir a caspa misturada com brilhantina sobre o couro cabeludo - que por certo cobria um crânio cheio de vazio intelecto - escarrapachados em riba de uma mota, que não estava ao alcance da maioria, e com alguns trocados nos bolsos, com o objectivo de engatarem a miúda mais “rica” e mais bonita lá da parvónia – por vezes mais “rica” do que bonita – pintando o engate com aperolados e brejeiros termos, ajuntando a estes um propositado timbre estrangeirês a impingir um fraco arremêdo à nossa fonética da nossa língua, que os cegos e grosseiros admiradores até achavam piada e pensavam imediatamente no sonhado reino da árvore das patacas.
Muitos, imbuídos nas histórias mirabolantes contadas por aqueles que aparentavam ter uma vida faustosa, – alguns de facto tiveram-na - mediante uma tutelada carta de chamada cuja protecção era muitas vezes duvidosa, lá embarcaram ao Deus dará, deixando a família em doloroso pranto; pais, irmãos, mulher e filhos, para se dedicarem ao garimpo do enriquecimento fácil, mas que a muitos ficou bastante custoso.
Acabadinhos de sair da lavoura, sem uma profissão definida, apenas com o abecedário mal decorado no alforge cerebral, enleados por natureza no espírito e no corpo, lá iam zarpando para as américas do Sul e do Norte, e para as terras de Simão Bolívar; outros com posses mais frágeis, ficavam-se pela Europa e, a “salto”, depois de muito calcorrear e passarem por diversas situações, desde as mais deprimentes às mais caricatas, amortalhados pela sorte de não serem apanhados e recambiados, lá chegavam a França e a outros países da Europa, onde eram explorados até à medula óssea. Apesar das agruras e outros contratempos sofridos, alguns conseguiram singrar porque a esperteza forçada conseguiu galgar o embrutecimento rústico.
Mesmo assim, aqueles que mais tarde voltaram, na sua maioria trouxeram a tola mais afanada do que de cá levaram; principalmente aqueles que, para aforrarem algum pecúlio, nunca se serviram da inteligência mas sim, dos factores tempo/trabalho e alimentação condicionada.
Ainda hoje podemos observar nesses vetustos “mercenários”, com algumas excepções claro, que quando abrem a matraca é para dizerem nada; apenas palratório de deitar fora, mas altamente convencidos duma sapiência fora do comum, porque estiveram no estrangeiro; o seu tempo de labuta não permitiu que o seu espírito se abrisse e as suas mentes ficaram fechadas ao conhecimento.
Muitos por lá ficaram, constituíram família e adaptaram-se ao meio – que remédio! Entre todos, uns ficaram bem, outros remediadamente e outros na miséria, acabando por lá deixarem a sua estrutura óssea sem fazerem uma peregrinação à santa terrinha onde ao sair do útero materno deram o seu primeiro grito de glória que a vida através do tempo acabou por esmorecer e acabaram por finar levando como fortuna apenas o sonho!
Mesmo assim houve também aqueles que chegaram ao torrão natal e construíram a sua casinha - um dos mais ambiciosos sonhos do ser humano – sem contudo se esquecerem da construção de uns anexos, para prenderem o rafeiro, criarem umas galinhas e passarem a fazer a sua vivência diária, mantendo o resto isento de moscas, teias de aranha e côdeas pelo chão, só para inglês ver. E lá viveram – alguns ainda devem viver - tristemente usando a falsa consideração social marcada pela hipocrisia, porque quando saíram das suas aldeias eram, o Jaquim, o Manel, Zé, o Toino, e quando voltaram deu-se uma imbecilizada e aparente inversão no seu estatuto social e passaram a ser conhecidos pelo Videira, o Sr. Silva, o Sr. Ramalho, o Sr. Ventoínha etc, cuja mutação apenas se deve a uma simulada relevância e consideração.
O Mundo é mesmo reles, não é?

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 12/05/2016
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segunda-feira, 9 de maio de 2016

O MATA-BORRÃO

O MATA-BORRÃO


Lembram-se?... Aquele papel reles e absorvente servia para secar a caligrafia evitando que ela esborratasse quando a escrita era feita com uma pena rasca? Que chupava também as nódoas (borrões) de tinta, quando esta, pelo seu excesso no aparo era coagida pela força da gravidade e caía no papel com a tendência sacana em borrar a alvura e a estética do documento? A esse papel chamava-se papel mata-borrão (alguns intitulavam de papel mata-murrão). Com o funeral da tecnologia obsoleta esse problema acabou, mas continua a existir sobre outras formas e não tem os mesmos fins que os simples e desusados mata-borrões do antigamente, que muitos não conheceram mas certamente já têm ouvido falar.
Se olhardes à vossa volta numa apreciação calma e concisa, ireis encontrar muitas “nódoas” e “borrões” para as quais o antigo papel mata-borrão, ainda que hoje existisse, não teria qualquer préstimo.
O “mata-borrão” moderno, é um “mata-borrão” de colarinho branco e sapato engraxado, não exceptuando também que os há de calças de ganga e botas cheias de porcaria muito semelhante com a que normalmente lhes sai boca, segregada pela opacidade das suas ideias, mas não absorvem as nódoas erradicando-as cerce; apanham-nas em vez de as chuparem, protegem-nas e serve-se delas para, de cambalacho, chupar os outros ou vergá-los à sua vil maneira de ser.
Como se pode ver, os tempos mudaram mas o “mata-borrão” tem-nos acompanhado sempre numa perseguição cerrada, invariavelmente acompanhado pelas nódoas negras, não para nos facilitar a vida mas para no-la infernizar.
Sou a favor de que quando se apanha um mata-borrão, com ou com ou sem borrão unido, é destruí-lo e mandá-lo para a reciclagem, tantas vezes quantas forem necessárias, até que saia transformado numa utilidade pública mais prestimosa que não a de nos sacanear; ou então promover o seu desaparecimento por completo.
Uma maneira eficaz de destruir completamente um “mata-borrão” com ou sem nódoas, ou reciclá-lo, por muito avantajada que seja a sua estrutura, é isolá-lo, ignorando-o em absoluto. É enquistá-lo socialmente, causando-lhe uma espécie de fibrose no seu ego e ele, de uma maneira ou de outra, acabará por capitular. Se o fizermos, ele degradar-se-á por si próprio, caindo de maduro. O isolamento silencioso e pleno gerado por toda uma comunidade dar-lhe-á poucas hipóteses de sobreviver. O desprezo silente como punição é de todas as armas a mais poderosa de que tenho conhecimento. Convenientemente aplicada ao “mata-borrão”, ele muda a maneira de ser e torna-se dócil e sociável, ainda que a contra gosto, ou então enlouquece e suicida-se.
O ignorar-se um elemento por todos os restantes em forte coesão, possui um poder de destruição incalculável. Por vezes torna-se difícil, mas o silêncio danifica muito as qualidades do “mata-borrão”.
Por isso, para higienização do meio em que vivemos, é de primordial importância “destruir” esse comedor ou protector de borrões, que no final não passa de um verdadeiro limpa sarranhos,  para que a salubridade se possa embrenhar na nossa vivência, em franca, aberta e fraterna comunidade.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 17/07/2007
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sexta-feira, 6 de maio de 2016

A ARTE DE BEM MONTAR

Porque amanhã vão ser inaugurados os túneis da serra do Marão onde este “saca-rolhas” irá estar presente, gostaria de brindá-lo mais uma vez com este articulado, que apesar de ter sido difundido em alguns periódicos – na época – e já com algumas teias de aranha, demonstra bem a certeza de um vaticínio que se tem vindo a consumar, graças à sua péssima governação.
A demonstrar isso, nas PPP/s, o último “P” nunca tem prejuízo.
Se o houver, paga o “Zé”.


ARTE DE BEM MONTAR…
(Carta aberta ao Primeiro-ministro)


Exmo. Sr.


Enquanto estou embalado pela “convicção” transmitida através dos falamentos de alento e confiança que V. Exa. tem dado aos portugueses no decurso das palestras televisivas, eu quase me sinto verdadeiramente como um peixe na água, por sinal bastante poluída para o meu gosto. Oxalá que não me arrependa e não venha a sentir-me como o boi na bosta, remoendo a pensativa palha proveniente do campo da incompetência. Não colocando à margem esta circunstância, provavelmente será a mais certa. Mas longe de mim tal ideia!? Isto é apenas uma divagação e penso que não me irá levar a mal por isso.
A governação tem sido boa, isto é, à maneira de V. Exa.. Os portugueses, apesar de um macilento sorriso, até tiveram mais dinheiro para gastar em prendas neste Natal, segundo as resenhas levadas a efeito pelas diversas emissoras de televisão, que gravitam à roda do sensacionalismo, principal objectivo da sua caça às audições, que de boca aberta e mente cerrada, ouvem verdades e mentiras sem saberem destrinçar o trigo do joio.
Saiba V. Exa. que eu nunca acreditei no pai natal, razão essa que me leva a ser apreensivo, não acreditando com excitado fanatismo em tudo o que ausculto. Por tal razão, penso que os portugueses foram “salvos” pelos cartões de crédito generosamente oferecidos pelas instituições bancárias, cujo gesto de falso altruísmo irá ser pago com língua de palmo e meio.
Estamos a viver à fartazana, não estamos? Comidinha não nos falta; louvado seja Deus e aos fiados; temos muito futebol, onde até se usam corruptos apitos dourados; demo-nos ao luxo de perdoar as dívidas a alguns países africanos e injectamos uns trocados noutros, sem qualquer exigência; democracia também não nos falta, senão eu não poderia estar aqui a dizer estas “bacoradas”; no entanto, devo dizer que até estava a precisar de um “hotel” à custa do contribuinte, pois já não sou de tenra idade e sinto mais necessidade de meditar do que de trabalhar. Mais agora, com o encerramento de Urgências Hospitalares, abaixamento da comparticipação medicamentosa, quinhão hoteleiro no alojamento hospitalar e nas intervenções bistúricas, subida de 6% na energia eléctrica, uma bicadazinha na H2O, “pequenino” ajustamento no preço dos inflamáveis provenientes do ouro negro, acerto previsto nas indústrias de panificação que ronda os 20%, subidazinha no preço dos transportes e irrisório aumento das reformas, confesso que, abraseado como ando, tenho muito medo de andar à solta!?... O que acha V. Exa. deste meu pavor? Será por acaso esta pergunta inconveniente?... Ou pertinente?
Apesar de eu ser bastante “pessimista”, como pode verificar, tenho gostado das palavras sabiamente articuladas por V. Exa. e sei que são imbuídas de uma facundidade fora do normal, o que mostra ser um verdadeiro aldrete, cuja oratória é convincente na sua forma e, sem sombra de dúvida, apodíticas de uma boa governichação. E muito mais o serão, para aqueles que “sabem” o que é política, que não eu, e para todos os outros cuja miopia cerebral alterou a densidade intelectual da sua massa encefálica.
Sabe Sr. Primeiro-ministro, quando uma pessoa passa dos sessenta, aquela fasquia que muitos parvalhões intitulam de terceira idade, já não diz coisa com coisa; mas deixe-me lá desarrolhar o meu gargalo um bocadinho, porque entendo que já baixei as “calças” demais, e daqui a pouco...!
Até agora versei, suponho eu, sobre a parte socio-económica, desenfreada peste negra que está assolando impiedosamente os portugueses, sobretudo os mais desfavorecidos – o que lhes vale são as Bem-Aventuranças, mas que não dão comer a ninguém.
Sem me alongar demasiado, gostaria de dissertar somente um pouco sobre a parte unicamente social, começando pela segurança que não temos. Ah, pois não!?... V. Exa. não sabia? Então se à própria polícia não é concedido o poder de defender-se das agressões físicas e verbais de que muitas vezes é vítima, como pode ela defender-nos? Seria um contra-senso fazê-lo. Se o professorado é tão depreciado e desautorizado, como pode conceder uma cabal educação, quer científica quer cívica? Actualmente, eu não gostaria de ser professor, Sr. Primeiro-ministro! E sei que muitos o são, devido à carência que têm de um salário, porque por motivação, certamente que o ensino desertificaria e ficaríamos com uma superfície territorial pejada de camelos. Agora, devido à abastança de iliteracia no nosso país, já é permitido ou está em vias disso, o professor ser aquilatado por qualquer asino ou desensinado, que pode não dizer duas p’rá caixa, mas faz barulho… E por vezes vence. Sobre a justiça, não é necessário dizer nada, porque é cógnita a sua “indubitável” credibilidade e rectidão, isto é, quando não aparece nenhum “pedregulho” pelo caminho e os nossos são muito pedrosos, como certamente V. Exa. já se deve ter inteirado.
Olhe Sr. Primeiro-minisro José Sócrates; já deve estar fartinho de padecer ao ouvir o asneirêdo deste velho ranhoso e iletrado, porém como ainda não ervilhei, não vou terminar sem antes sugerir uma coisa a V. Exa.: muito eu gostaria, que à semelhança do nosso rei D. Duarte de Bragança, mui entendido na arte de cavalear, que até escreveu um livro intitulado”Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela”, V. Exa. escrevesse também um, que similarmente ficaria para a história, porém, que tivesse por título, “Arte de Bem Montar Todo o Asno”.
Não seria despropositado, pois não!? Eu penso que devia ser fantástico!



António Figueiredo e Silva
Coimbra 17/042007

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segunda-feira, 25 de abril de 2016

O MEU SÓCIO COMPULSIVO

O mais corrupto dos Estados
 tem o maior número de leis.
Tácito


O MEU SÓCIO COMPULSIVO
O tempo que medeia entre o início da minha atribulada visita a este mundo e o momento em que me encontro, tenho a dizer que durante este percurso, houve dias maus em que o frenesim fazia o corpo tremer até entorpecer a alma, e dias bons, porém em menos quantidade, em que a euforia, por vezes desmedida, procurava sanar as feridas dos dias aziagos que foram em maior número; a saltar de pedra em pedra para não bater com eles na lama, cá me vim equilibrando durante todo este tempo, que no momento conclui a “bonita” soma (aproximada) de 26.299 dias da minha existência; sim, porque dou conta de que ainda existo, quando não, neste momento não estaria p’ráqui a teclar estas baboseiras, talvez entendíveis, para entreter o pagode e aliviar a tensão reactiva que existe dentro de mim.
Apesar de ter comido pão que o Diabo amassou, e com tenacidade ter conseguido afogar os infortúnios nas oportunidades boas que a Natureza me concedeu, sempre alimentei uma ideia de autonomia, que agora verifico ter sido transitória, digna de um tolo, de um indivíduo com falta de miolos.
Fiz de tudo na vida, seguindo no entanto, as mais elementares configurações de civismo, sem nunca me deixar levar em cantigas, procurando manter sempre, segundo o alcance da minha visão, o que se afigurava ser uma credível independência.
O decorrer da vida foi cavalgando no lombo do tempo sem eu dar por ela, e, sem me ter apercebido, dei comigo no patamar da lucidez onde a ficção já não tem figura; neste horizonte os factos funcionam de maneira diferente e a pesagem dos problemas é feita com laminar cautela. Aqui, ainda que tardiamente, descubro com frustrante resignação e revolta, que realmente nunca gozei de emancipação absoluta; houve sempre a existência de um parceiro, que, não por minha vontade mas por imposição de circunstâncias inerentes ao foro social, se encostou a mim como uma rémora sofregamente a chupar-me o suor e algumas migalhas. Em princípio ainda pensei que o sócio era uma pessoa de bem, mas agora sinto-me decepcionado e ao mesmo tempo, revoltado.
Este sócio, que não tem cara, aos poucos tem arruinado a minha independência, por se imiscuir sem escrúpulos e de forma abrasiva nas benesses que eu devia usufruir, obtidas por uma vida de trabalho, para gozar de uma existência digna. Nada disso tem acontecido. Este meu sócio, vem actuando a coberto da capa de uma democracia fingida, por baixo da qual saliva e arreganha os dentes uma ditadura esclavagista sob a qual tenho vivido muito tempo na dúvida da sua existência. Agora percebo que a democracia desse meu parceiro é falsa e a ditadura não é para todos, sendo porém uma endemia que ataca os mais franzinos.
Este meu quinhoeiro obrigatório sem rosto nem moral, que tem permitido todo o género de falcatruas e injustiças, é composto na sua maioria por figuras que nunca sentiram o aperto das grilhetas decorrentes das agruras da vida, e por isso, não valorizam o sacrifício; são doentiamente amantes da riqueza e do luxo, que fazem questão mórbida de ostentar perante a submissão de milhões de escravos, vergados sob a pressão de regulamentos feudalmente decretados e protegidos pelo fantasma da coacção.

Este meu sócio compulsivo, chama-se, Estado. A principal fonte das minhas dores de cabeça – e de todos nós.

António Figueiredo e Silva
Coimbra, 24/04/2016
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domingo, 24 de abril de 2016

IR P'RÓ GALHEIRO

IR P’RÓ GALHEIRO

Por conveniência, optei pela recusa em investigar o que é o galheiro devido à versatilidade da sua aplicação nas mais diversas situações surgidas no decurso da linguagem corrente portuguesa, cuja abrangência ultrapassa já, o regionalismo. Por isso, não sei o que é; mas se existe, não faço a mínima ideia onde encontrá-lo; talvez ao lado do Céu, ou do Inferno, ou mesmo entre ambos; ou então em lado nenhum a não ser na fertilidade da nossa imaginação. Bem, sei apenas que é um vocábulo com um significado bastante abrangente e com ampla grandeza angular usado vezes sem fim na articulação da nossa língua, e que, segundo o tom em que é pronunciado ou as palavras que o precedem, tanto pode significar mau presságio como uma advertência, um fim ou um destino. Pode também ser conotado como gosativo, pejorativo e ameaçador, levas uma cacetada nesses cornos e vais p´ró galheiro; admirativo, não me digas, foram pró galheiro; interrogativo, queres ir p’ró galheiro? e muitas outras formas de interpretação que não me apraz mencionar porque já foram p´ró galheiro do meu pensamento.
Imagino o galheiro como uma uma arca de capacidade ilimitada situada no espaço incomensurável da nossa imaginação, para onde mandamos tudo o que nos desagrada, e por vezes, se formos palermas, também o que nos agrada.
A palavra galheiro, certamente deve ser derivada de galho e todos sabemos o que é um galho; sabemos também que se o galho se quebra temos grandes possibilidades de ir para o imaginário galheiro.
Ao perder o meu precioso tempo a dissertar sobre este termo, se no final por qualquer azar o computador se avariasse ou o meu discernimento parasse a sua função cognitiva, como é hábito dizer-se, que lá foi tudo tudo p’ró galheiro. Isso é que seria um grande galho!
O galheiro foi uma criação nossa, onde podemos meter o azar e a sorte; neste caso não ficam as duas no galheiro, não; quando uma delas vai para o galheiro a outra desocupa o seu espaço para o próximo visitante que tanto lá pode permanecer temporária como eternamente – aqui já é mau.
E para ultimar, todos os que leram esta alienada crónica e gostaram, que repitam a dose, pois o riso equivale a um voo suave, onde o espírito momentaneamente usufrui de liberdade em toda a sua plenitude; os que não apreciaram, que vão todos p´ró o galheiro, não sem primeiro terem partilhado esta sinusoidal crónica que acabei de escrever, antes que o azar me bata à porta e eu vá p’ró galheiro.


Loureiro/Oliveira de Azeméis
08/04/2016
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